Mais uma vez, muita gente vai torcer o nariz para uma coisa legal só porque ela está bombando na mídia - fala-se de Jogos Vorazes como uma "nova grande franquia", no rastro de Harry Potter ou Crepúsculo, o que significa que a indústria cultural está contando com ele para faturar os tubos, não só com livros e filmes, mas com todo tipo de memorabilia imaginável e com uma fornada de imitações mais ou menos óbvias, e isso será suficiente para que muitos nem sequer levem a sério a possibilidade de lê-lo. Como continuo acreditando que nenhum "dogma" deve ser colocado acima do julgamento individual, pus os preconceitos de lado e li.Notas de Literatura
Algumas letras jogadas ao acaso
Sexta-feira, Março 30, 2012
Jogos Vorazes
Mais uma vez, muita gente vai torcer o nariz para uma coisa legal só porque ela está bombando na mídia - fala-se de Jogos Vorazes como uma "nova grande franquia", no rastro de Harry Potter ou Crepúsculo, o que significa que a indústria cultural está contando com ele para faturar os tubos, não só com livros e filmes, mas com todo tipo de memorabilia imaginável e com uma fornada de imitações mais ou menos óbvias, e isso será suficiente para que muitos nem sequer levem a sério a possibilidade de lê-lo. Como continuo acreditando que nenhum "dogma" deve ser colocado acima do julgamento individual, pus os preconceitos de lado e li.Terça-feira, Fevereiro 28, 2012
A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato
Sexta-feira, Janeiro 13, 2012
Queda de Gigantes
Vou confessar: eu tinha um certo preconceito com Ken Follett. Não sei por que, mas ele sempre me pareceu ser um outro Sidney Sheldon - que, por sua vez, embora não seja o melhor escritor do mundo, está longe de ser o pior: como já escrevi antes, é incomparavelmente melhor ler Sidney Sheldon do que não ler coisa nenhuma. Em todo caso, neste momento estou dando a mão à palmatória: como sempre acontece com os preconceitos, esse ruiu assim que travei verdadeiro conhecimento com a coisa sobre a qual pensava saber algo. Queda de Gigantes é um livraço, e não só por ter mais de 900 páginas. Aliás, se não fosse um livraço também no outro sentido, chegar ao fim de um livro dessa extensão seria praticamente impossível.
Enquanto o exército russo invade a região alemã da Prússia, do outro lado do continente os alemães enfrentam britânicos e franceses. A Primeira Guerra Mundial forçou uma transição brusca entre as formas de guerrear antigas e modernas: nas primeiras batalhas ainda se tentou utilizar a cavalaria, que desde a Antiguidade era considerada uma arma decisiva na maioria das guerras, mas que logo se mostrou impotente diante de tanques e metralhadoras. Pela primeira vez foram usados aviões e bombas de alta potência, elevando a guerra a um novo patamar de horror. As metralhadoras fixas (ainda não existiam as leves, que poderiam ser usadas por soldados de infantaria) eram um poderoso instrumento para a defesa de posições, praticamente à prova das formas tradicionais de ataque, o que teve como consequência uma taxa terrível de baixas: a infantaria precisava atravessar correndo as várias centenas de metros da "terra de ninguém" que separava as trincheiras de cada lado - e tinha que fazer isso indo ao encontro das rajadas das metralhadoras inimigas.
Os Estados Unidos entraram tardiamente na guerra, em 1917, oficialmente em resposta ao torpedeamento de navios americanos por submarinos alemães no Atlântico norte com o objetivo de cortar o fornecimento de suprimentos a ingleses e franceses, mas fica claro com uma análise mais cuidadosa que isso foi apenas parte do motivo: os americanos sabiam bem o que perderiam no campo econômico se alemães e austríacos vencessem a guerra e ficassem senhores da Europa. Para a Inglaterra e a França, a adesão dos ianques foi, literalmente, a salva
ção, principalmente depois que a Rússia se retirou da guerra por causa da Revolução Comunista ocorrida em outubro desse mesmo ano. Para relatar o que acontece na Casa Branca, Follett usa o jovem Gus Dewar, então um dos assessores diretos do presidente Woodrow Wilson.
Queda de Gigantes é um daqueles livros cuja leitura torna-se rapidamente compulsiva - você começa a ler e, quando se dá conta, percorreu 50 páginas sem sentir, e ainda fica contrariado por ter outros afazeres que o obriguem a deixar a leitura de lado por algum tempo. Por tratarem basicamente de guerra, estas páginas mostram um pouco (na verdade, muito) do melhor e do pior que existe nos seres humanos, pois talvez nenhuma outra situação seja tão propícia à revelação desses extremos. É fascinante ler um autor com a capacidade de nos fazer entender como a História é construída, pedra por pedra, pelas ações de seres humanos iguais a nós, tanto os milhares de anônimos que lutaram na guerra e os milhões que sofreram seus efeitos, quanto os grandes líderes que precisaram arcar com o peso de decisões que definiriam o futuro de países inteiros - e, infelizmente, nem sempre se mostraram à altura de tal responsabilidade. E a guerra não é mostrada de uma maneira simplista, como se tivesse sido um confronto do "bem" contra o "mal": o leitor conhece personagens de ambos os lados, estima-os igualmente e torce para que sobrevivam e voltem para suas famílias, o que dá à coisa toda, antes de mais nada, um sentido profundamente humano.
Sábado, Dezembro 31, 2011
Politicamente... corretos??
A revista Aventuras na História de dezembro traz uma matéria sobre a série de livros em quadrinhos (hoje dir-se-ia "graphic novels") intitulada Tintim, criada pelo jornalista e cartunista belga Hergé entre o fim da década de 20 e sua morte em 1986. Os aficionados por quadrinhos saberão na hora do que estou falando: embora menos popular, Tintim é tão clássico quanto Asterix. Para ser mais exato, a matéria é sobre as posições "discutíveis" tomadas pelo autor em praticamente todas as suas histórias, e especula um pouco sobre como Steven Spielberg terá contornado esse fato no filme que fez sobre o personagem, com estreia prevista para janeiro no Brasil.
As tais posições discutíveis consistem basicamente numa visão "eurocêntrica" do mundo. Tintim é um repórter do jornal belga (que existe mesmo: Hergé trabalhava nele quando criou o personagem) Le Vingtième Siècle, que viaja pelo mundo no exercício de sua função - mas, como teria que acontecer numa série de aventuras dirigidas ao público jovem, suas expedições jornalísticas nunca são tranquilas: ele sempre se mete em situações perigosas. Mais que isso: suas atitudes (muitas vezes de uma maneira não proposital, o que é mais revelador) deixam transparecer a ideia, apresentada como óbvia a ponto de não merecer reflexão, de que tudo o que vale a pena ou é digno de atenção, ou está na Europa ou deriva direta ou indiretamente de lá. Partindo desse ponto de vista, o colonialismo, que na época estava sendo contestado tanto nas próprias colônias quanto nas metrópoles, era plenamente justificável e até mesmo natural. Cito:
Quando Tintim foi ao Congo, em 1931, o país africano ainda era uma colônia belga (a independência veio só em 1960) e os quadrinhos reproduziam a visão eurocentrista da época. Na primeira versão do álbum, os congoleses falavam um francês primitivo e eram extremamente submissos. Em um dos trechos, Tintim substitui um professor em uma escola missionária e começa a aula apontando para um mapa da Europa: "Meus queridos amigos, hoje eu vou falar sobre o seu país: a Bélgica". Nas versões posteriores, o mapa foi substituído por um quadro-negro, e a lição sobre a Bélgica, por uma de matemática.

Atravessando o oceano, encontramos mais exemplos: as obras de Mark Twain (1835-1910) estão sendo reescritas nos Estados Unidos para atender às demandas da tirania politicamente correta. No texto de Twain, é largamente utilizada a palavra nigger - uma designação pejorativa para pessoas negras -, agora substituída por slave ('escravo'). Note-se que a situação dos negros não é um ponto de pouca importância nessas obras, já que o escravo Jim, fiel amigo dos imortais anti-heróis Tom Sawyer e Huckleberry Finn, é um dos personagens mais atuantes nas histórias. Eu já tinha lido, creio que numa dissertação sobre a vida e a obra de Samuel Langhorne Clemens (Mark Twain era pseudônimo) que, já em meados do século passado, portanto bem antes da babaquice politicamente correta ser inventada (ou seria ela bem mais antiga do que imaginamos?), as Aventuras de Huck (1885), geralmente consideradas sua obra mais importante, haviam sido alvo de protestos por parte de pessoas que consideravam o livro racista. Pessoalmente, acho que o racismo estava muito mais na cabeça de tais pessoas do que nas páginas dessa obra essencial da
literatura norte-americana. De outra forma, como teria sido possível alguém não perceber que o que Twain estava fazendo era sair em defesa dos negros, que eram particularmente marginalizados no sul dos Estados Unidos, região onde ele nasceu e viveu? A escravidão foi abolida no país com a vitória dos estados do norte na Guerra Civil, em 1865, quando Mark Twain tinha 30 anos de idade; já as aventuras de Tom Sawyer e Huck Finn são ambientadas nos anos da adolescência do autor, quando a escravidão era vista como um fato cotidiano, e seria ingenuidade esperar que uma emenda constitucional tivesse o poder de mudar instantaneamente a atitude que a maioria dos americanos brancos tinha em relação aos negros. Há um trecho onde Huck inventa, para uma senhora com quem se encontra, que esteve viajando num barco a vapor e que chegou atrasado porque a cabeça de um cilindro da embarcação saltou devido à pressão, exigindo uma parada para conserto. A tal senhora então pergunta se alguém se feriu e, ao ouvir em resposta que um negro morreu, manifesta alívio, "porque em acidentes desse tipo, às vezes, pessoas se machucam". O autor estava sendo racista? Claro que não: se no livro os negros são vistos por muitos como seres subumanos, é porque era isso mesmo o que acontecia na época que a história retrata - e também na época em que ela foi publicada, mesmo que entre uma coisa e outra a escravidão tivesse sido abolida. Esquecer esses fatos, ou escondê-los das novas gerações, fará bem a alguém? Acredito que muito pelo contrário: como escreveu Sêneca (se não me engano), quem esquece o passado condena-se a repeti-lo, e isso não vale só para indivíduos: aplica-se também às sociedades. Observe-
se ainda, de passagem, que defender a igualdade das pessoas independentemente de raça, nos tempos de Mark Twain, exigia muito mais coragem do que hoje, porque essa ideia não era unanimidade: muitas pessoas que se consideravam "de bem" davam como certo que os negros, e qualquer outra raça não-caucasiana, eram inferiores, e fim de papo. Isso era ensinado em escolas e universidades; havia cientistas que acreditavam tê-lo provado. E depois de terem purgado as obras de Twain de todas as partes supostamente racistas, qual será o próximo alvo da patrulha politicamente correta? Suponho que os próprios Tom e Huck, cuja maior qualidade enquanto criações literárias é (era?) precisamente o fato de representarem garotos reais, de carne e osso, do sul dos Estados Unidos em meados do século XIX: garotos criados soltos nos brejais do Mississípi, que fumavam cachimbo, pregavam mentiras sempre que achavam necessário e preferiam com toda a certeza perambular pelo mato e remar de ilha em ilha pelo rio ao invés de ir à escola. Agora, se depender dessa turma, provavelmente as próximas edições de Tom Sawyer e das Aventuras de Huck terão protagonistas vegetarianos, que fazem ginástica ao acordar e trabalho voluntário para causas sociais...
Não estou dizendo que os preconceitos de época presentes em obras literárias devam ser considerados normais ou assim apresentados aos novos leitores. O que acontece é que o melhor caminho, aquele que mais contribuiria para a edificação cultural e para a própria formação das novas gerações, mais uma vez, não é o caminho mais fácil. Temos um exemplo mais perto de nós: Monteiro Lobato (1882-1948), que pode não ter revolucionado a literatura brasileira como Mark Twain fez com a norte-americana, mas sem dúvida marcou a infância de muitos brasileiros e foi responsável por despertar em pelo menos alguns o gosto pela leitura. Há, sim, detalhes racistas nas histórias do Sítio do Picapau Amarelo, mas seria ignorância culpar o autor por isso: ele era simplesmente um homem de sua época. Nos anos 30 e 40, muitas pessoas que haviam sido escravas, ou donas de escravos, ainda estavam vivas; era, portanto, normal que tia Nastácia chamasse sua patroa, Dona Benta, de "sinhá" - mas como uma criança de hoje iria interpretar isso? Depende apenas dos instrumentos de interpretação que a família e a escola lhe houverem fornecido. Mais complicado: sempre
que a boneca Emília queria fazer uma malcriação com tia Nastácia (o que acontecia em média duas vezes por livro), chamava-a de "negra beiçuda" ou de outros insultos de teor racista. Em pelo menos uma ocasião, Dona Benta vem em defesa da cozinheira dizendo que "todos sabem que Nastácia só é preta por fora" (!), declaração que consegue ser mais racista que os xingamentos dos quais tentava defendê-la.
Entretanto, eu defendo que a solução para isso não é nem banir as obras de Lobato (que são literatura infantil de qualidade, que já se provou capaz de resistir ao tempo) nem "reescrevê-las" para que não choquem os mais sensíveis nem disseminem ideias preconceituosas entre os jovens. Esse tipo de "reescrita" (e o que digo agora vale para as obras de Hergé, Twain, Lobato e dezenas de outros) teria o efeito de criar nesses jovens a noção de que o mundo foi sempre como é agora, tirando-lhes qualquer chance de vir a compreender na prática o que significam variações de cultura e perspectiva histórica - coisas sem as quais, a meu ver, não é possível alcançar a verdadeira maturidade intelectual. Devíamos, isso sim, investir em esforços para que a educação oferecida a cada nova geração a tornasse capaz de fazer seus próprios julgamentos, de modo que, quando fosse o caso, pudesse apreciar uma obra literária pelo que tem de belo e interessante, sem necessariamente aceitar como verdade todas as ideias que ela apresente. Não é fácil? Nem um pouco. Mas quem aí já obteve algo de bom na vida fazendo as coisas do jeito mais fácil?
Infelizmente, a brigada politicamente correta que domina certos setores da cultura contemporânea, seja por mera ignorância ou por uma determinação consciente de fazer ouvidos surdos a qualquer coisa que desqualifique seus argumentos (e, não raro, as duas coisas), não demonstra qualquer senso de perspectiva: já vi censurarem Cristóvão Colombo por não ter tido preocupações ecológicas no início da colonização das Américas, e absurdos ainda maiores. É até natural que cada geração tenha a tendência de pensar que suas próprias crenças e visões de mundo são as "certas" - mas aqueles que, em qualquer geração, vêm a alcançar algum grau de sabedoria, não demoram a compreender o quanto tais coisas são frágeis. Embora não seja uma coisa fácil de aceitar, Salman Rushdie estava certo ao dizer que verdade é o que a maioria vê como verdade - mas a maioria também pode mudar de opinião ao longo da História. É muito possível que ideias que hoje aceitamos como normais sejam consideradas absurdas e preconceituosas daqui a alguns séculos. Não há saída: toda pessoa que tenha a pretensão de estender sua compreensão um pouco além de sua vidinha cotidiana tem que aceitar o fato de que tudo é transitório, tudo é nebuloso, e de que não temos certeza de coisa alguma.
Quarta-feira, Novembro 23, 2011
Rei Morto, Rei Posto
A escritora britânica Mary Renault (1905-1983) foi durante décadas a grande dama da ficção histórica de língua inglesa. Para dar uma ideia de sua importância, hoje ela é citada como influência por sujeitos como Steven Pressfield, Conn Iggulden, Simon Scarrow e outros desse calibre. Sobre ela, a crítica chegou a dizer que era capaz de escrever sobre a Grécia antiga como se nela tivesse vivido. Deve ser verdade, pois suas narrativas têm o poder de nos dar a sensação de que nós, leitores, é que estamos vivendo lá.Cnossos em sua glória

Teseu teve muitas outras aventuras, desde raptar Helena de Esparta (mais tarde celebrizada como Helena de Troia) quando ela ainda era quase uma criança e ele já um homem de meia-idade, até raptar (também) Antíope, a rainha das ferozes amazonas da Ásia Menor, o que causou o lendário ataque delas contra Atenas. De Antíope, Teseu teve seu único filho legítimo, Hipólito, que protagonizaria uma autêntica tragédia, bem ao gosto dos gregos. Mas isso tudo daria (e talvez dê mesmo) assunto para mais uns três textos.
Por ora, para finalizar este post, eu gostaria de chamar atenção para a realidade histórica por trás do mito do Minotauro e do labirinto. Além de seu poderio naval, a ilha de Creta era famosa por seu gado - vacas e touros formidáveis, bem maiores e mais possantes que a raça criada pelos gregos. A figura lendária do Minotauro, que fundia homem e touro, surgiu lá, e para os cretenses tinha provavelmente um significado muito diferente do que a lenda grega mais tarde lhe daria: não um sinal de infâmia nem um monstro cruel, mas sim um símbolo de força e poder. Com essa conotação, foi adotado como uma espécie de emblema oficial pelo Estado cretense, como a águia seria mais tarde para Roma: a figura do Minotauro ornava as velas dos navios de Creta e as fachadas de seus palácios, e passou a ser associada, tanto pelos próprios cretenses quanto pelos gregos, à nação cretense em si mesma. Portanto, "matar o Minotauro" significa provavelmente que Teseu liderou os gregos numa rebelião, que derrubou o poder de Creta e transformou a ilha em possessão helênica. De fato, quem for ler a Ilíada de Homero encontrará, na narrativa sobre a Guerra de Troia, um personagem chamado Idomeneu, que é apresentado como rei de Creta e é em tudo e por tudo um heleno. Portanto, tudo sugere que, poucas décadas depois do tempo de Teseu, Creta havia sido colonizada pelos gregos e era agora um reino helênico. O labirinto, por sua vez, pode ser uma referência ao palácio real de Cnossos, que tinha tantas salas e corredores que seria fácil perder-se dentro dele.
Há muitos outros detalhes interessantes que quem ler Rei Morto, Rei Posto e tiver algum conhecimento sobre história e mitologia gregas perceberá, e eu bem gostaria de mencionar tudo o que encontrei, mas, mesmo que quem lê este blog já haja demonstrado que não tem medo de textos longos (risos), acho que ainda assim é bom manter um pouco de moderação, então vou colocando o ponto final por agora. Creio que os livros de Mary Renault devem estar fora de catálogo no Brasil, mas não tive dificuldade em achá-los em bons sebos. E qualquer um desses livros que caia nas mãos de vocês pode ser plenamente recomendado.
Em tempo: quando li o livro pela primeira vez, foi numa edição diferente, não lembro de que editora era, e a capa fugiu-me quase completamente da memória. O exemplar que tenho hoje foi comprado num sebo faz algum tempo e foi lançado pelo Círculo do Livro, com a capa que aparece no início deste post - capa, por sinal, péssima. Já vi chifres maiores e caras mais assustadoras num tambo de leite que visitei certa vez do que no Minotauro nela representado, e, quanto ao herói que aparece, lembra muito mais a descrição tradicional de Hércules que a de Teseu.
Terça-feira, Outubro 18, 2011
Harry Potter e o Enigma do Príncipe
Tudo bem, Harry Potter é literatura mainstream - mas por que isso é necessariamente um demérito? Certo, seria hipócrita negar que, para o viciado em literatura, existe um tipo de satisfação egoísta em conhecer livros magníficos dos quais pouca gente ouviu falar, mas a radicalização desse prazer leva o tal viciado, por vezes, a torcer automaticamente o nariz para obras que estão na boca do povo, que fazem furor, vendem exemplares às toneladas e viram fenômenos de mídia. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, eu diria: achar que algo deve ser bom só porque todo mundo está comentando é um comportamento burro - mas não é menos burro achar que algo é ruim pelo mesmo motivo.Uma pena, pois racismo, ainda que sob uma roupagem de fantasia, é um dos temas mais discutidos na série. No mundo da magia onde transitam Harry, seus amigos e inimigos, não parece haver discriminação pela cor da pele ou dos olhos, mas existem bruxos que se consideram superiores aos outros por terem o que chamam de "sangue puro" - o que consiste em ter exclusivamente ancestrais bruxos em suas árvores genealógicas. Naturalmente, há diversidade de opiniões: existem bruxos de sangue puro que não ligam para isso e consideram mestiços e trouxas (os não-bruxos) como seus iguais - e há também bruxos mestiços que tentam fazer parecer que são puros-sangues para tentar ganhar status em certos meios. O potencial de intolerância gerado nesse cenário já levou, como seria previsível, a muitos conflitos através dos séculos, e no último deles o mundo mágico assistiu à ascensão do mais temido bruxo das trevas de todos os tempos, que se autointitulava Lorde Voldemort - e tal era o pavor que inspirava, que a maioria dos bruxos tem medo até de pronunciar seu nome, preferindo referir-se a ele como "Você-Sabe-Quem" ou "Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado". Esse bruxo matou os pais de Harry quando ele ainda era um bebê - mas, por razões que ninguém compreende muito bem, não conseguiu matar o próprio Harry, e teve seus poderes e corpo destruídos quando o terrível feitiço que lançara contra o menino ricocheteou e o atingiu. Harry foi criado pelos tios trouxas, sofrendo negligência e todo tipo de implicância, até os onze anos de idade, quando teve a revelação de quem era e foi levado para a prestigiosa Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde iniciou a educação necessária para viver no mundo a que realmente pertencia. E, muito para sua surpresa, descobriu que era famoso: no mundo dos bruxos, a maioria das pessoas o considera um herói por ter (aparentemente) destruído Voldemort. Uma crença que, infelizmente, demonstrou-se errada: Voldemort estava enfraquecido e privado de um corpo, mas continuava vivo. Só agora, cinco anos e muitas aventuras depois, Harry está prestes a descobrir como isso foi possível.
Paralelamente às aulas normais, Harry, periodicamente, é chamado ao escritório de Dumbledore, que, por meio de lembranças colhidas de diversas pessoas, vai revelando a ele (e ao leitor) uma série de informações até então ocultas sobre o passado de Voldemort. O modo como essas lembranças são partilhadas foi uma criação particularmente brilhante de Rowling: por meio de um artefato conhecido como "Penseira", Harry e Dumbledore mergulham nas lembranças de outras pessoas e as vivenciam como se estivessem na época e no local dos acontecimentos. O diretor é de opinião que Harry deve saber o máximo possível sobre o inimigo, a fim de preparar-se para o confronto inevitável: uma profecia feita logo após Harry nascer revelou que, no final, ele terá que matar Voldemort ou ser morto por ele.
Parte do encanto (ops!) da história está no fato de que, ao mesmo tempo em que se vê implicado em acontecimentos grandiosos e terríveis e convive com o fato de que o destino do mundo bruxo pode vir a estar em suas mãos a qualquer momento, Harry também precisa lidar com os mesmos desafios de um adolescente comum: trabalhos da escola, o time de quadribol (o esporte mais popular entre os bruxos) onde joga, e a paixão que descobre estar sentindo por Gina Weasley, a irmã mais nova de Rony. E, antes que seu sexto ano termine, ele terá mais uma vez que enfrentar provas muito mais penosas que as da escola, onde estará em jogo muito mais do que sua vida, e que exigirão toda a sua coragem, habilidade em magia, e a ajuda de seus fiéis amigos. Mais dramático que isso: sem ter ainda se recuperado totalmente da morte de seu padrinho, Sirius Black, que tombou no ano anterior combatendo as forças das Trevas, Harry perderá outra das pessoas mais importantes de sua vida.
Porém, o paralelo mais interessante que encontrei na série foi a aproximação - não tão evidente, mas inegável quando se analisa todas as pistas - entre Lorde Voldemort e Hitler. Vamos somar dois mais dois: Voldemort é idolatrado pelos bruxos que se orgulham de seu sangue puro e consideram mestiços e trouxas ralé - sendo que ele próprio é mestiço, filho de mãe bruxa e pai trouxa. Já Hitler arquitetou e liderou a maior e mais terrível campanha de extermínio já movida contra um grupo étnico na história da humanidade - e muito provavelmente era, ele próprio, neto de um judeu. Voldemort cerca-se de um grupo de seguidores terríveis, os Comensais da Morte, muitos dos quais também são mestiços que se declaram leais até a morte à causa da pureza do sangue bruxo; da mesma forma, seria preciso ser muito ingênuo para acreditar que todos os membros do Partido Nazista ou das SS fossem "arianos puros"... Trata-se, sem meias palavras, de uma alegoria extremamente inteligente para evidenciar a incoerência intrínseca de todas as ideologias baseadas em preconceitos; e ainda mais inteligente se torna por exigir uma certa dose de conhecimento e capacidade de raciocínio para ser detectada. Quem acha que Harry Potter é só literatura consumível ou coisa para criança deveria pensar de novo.
Quarta-feira, Setembro 28, 2011
Conan, o Bárbaro
E eis que a aventura A Hora do Dragão, único romance escrito por Robert E. Howard sobre seu mais famoso personagem, o bárbaro Conan, chega finalmente ao Brasil numa edição caprichada, embora intitulada simplesmente Conan, o Bárbaro e com a imagem do cartaz do filme servindo de capa... É incômodo dependermos das marés da indústria do cinema para ter acesso a obras que deveriam estar sempre em catálogo, mas vá lá: pior seria não termos acesso a essas obras de maneira nenhuma, como aconteceu durante muito tempo.
ara compor a geografia e as características humanas dessa era fictícia, o escritor costurou uma verdadeira colcha de retalhos, usando referências históricas e míticas oriundas das fontes mais diversas - e sem a menor cerimônia para misturar elementos que, na origem, não tinham qualquer ligação de contemporaneidade entre si. Nesse mundo próprio repleto de esplendores e perigos desenrolou-se a saga de um personagem que, embora subestimado até mesmo por muitos fãs de Howard, em minha opinião possui potencial heroico próximo ao de Conan, e um potencial dramático bem superior: Kull da Atlântida, que vai me render outro post.
Se a Era Pré-cataclísmica de Kull era uma fabulosa miscelânea de elementos tirados de todos os lugares possíveis e imagináveis, a Era Hiboriana de Conan é tudo isso elevado ao quadrado. "Hiborianos", por falar nisso, é uma designação genérica usada para se referir aos reinos correspondentes à atual Europa, que teriam sido os mais influentes e poderosos de tal época. Examinando o mapa do mundo onde viveu Conan, a impressão que se tem é a de que Howard quis certificar-se de que nele estivessem presentes os ambientes e ingredientes necessários para praticamente qualquer tipo de aventura que se pudesse imaginar: existem bárbaros orgulhosos e violentos em reinos gelados no norte, existem mares infestados de piratas, existem desertos povoados de belicosos beduínos e de mistérios ao estilo de As 1001 Noites, existem savanas e selvas tropicais com suas tribos selvagens e feras exóticas (os reinos negros ao sul da Stygia), existem reinos regidos por estruturas feudais de poder, como a própria Aquilônia, nitidamente inspirada na França medieval, existem países orientais esplendorosos e quase desconhecidos pelos hiborianos - e, claro, há vastas extensões ainda inexploradas, onde aventureiros audazes podem encontrar todo tipo de maravilhas e horrores.
O próprio Howard apenas começou a narrar as aventuras de seu herói nesse mundo extraordinário: não viveu o suficiente para levar as histórias muito adiante. Nele conviviam uma imensa criatividade e uma carga nada desprezível de conhecimentos gerais, particularmente sobre História (adquirida de maneira autodidata, pois ele nunca concluiu uma faculdade), mas também uma personalidade atormentada e emocionalmente imatura - basta dizer que se suicidou quando ficou sabendo que não havia chance de sua mãe se recuperar de um coma: não era capaz de se imaginar vivendo sem ela. Tinha pouco mais de 30 anos. Imaginem o que foi isso para o pobre Dr. Howard: enterrar esposa e filho num espaço de poucos dias...
Como uma última informação importante sobre o autor, deve-se lembrar que Robert E. Howard manteve durante vários anos uma extensa correspondência com vários outros escritores notáveis do gênero de fantasia, como H.P. Lovecraft, Clark Ashton Smith, August Derleth e outros, e que a leitura atenta das obras de todos esses autores mostrará a influência exercida reciprocamente entre eles.
A obra de Howard sofreu um período de ostracismo após a morte do autor. Nos anos 50 apareceu nos Estados Unidos um livro reunindo alguns contos sobre Conan; na década seguinte, os escritores L. Sprague de Camp e Lin Carter conseguiram ter acesso aos papéis pessoais deixados por Howard, entre os quais encontraram desde esboços rudimentares de enredo para contos que não chegaram a ser escritos até histórias inacabadas em variados estágios de progresso. Assumindo o encargo de novos cronistas da Era Hiboriana, De Camp e Carter completaram muitas dessas histórias, que vieram a ser publicadas. Também criaram histórias novas baseadas em simples anotações feitas por Howard, como a saga Conan, o Libertador, que contava sobre a revolução que o cimério teria liderado para derrubar o tirânico rei Numedides, vindo então a ocupar o trono da Aquilônia.
Em 1970, a Marvel adquiriu os direitos de adaptação para os quadrinhos de Conan e outros personagens de Howard, dando início àquela que seria a fase mais produtiva (em número de publicações) do bárbaro. Roy Thomas, já então um renomado argumentista de quadrinhos do selo, tornar-se-ia célebre pelo trabalho realizado com Conan. Não tenho certeza se as primeiras histórias em quadrin
hos de Conan a aparecerem no Brasil chegaram antes ou depois da estréia do primeiro filme do personagem, mas a editora Bloch lançou algumas publicações antes de a Abril, então parceira da Marvel no país, começar a publicar A Espada Selvagem de Conan, versão nacional de The Savage Sword of Conan, revista em formato grande, preto e branco, que no Brasil durou de 1984 a 2001. Também saíram algumas aventuras de Conan nas revistas Heróis da TV e Superaventuras Marvel, que eram coloridas e em formato pequeno. Mais recentemente, a Dark Horse Comics publicou uma revista intitulada simplesmente Conan, também em quadrinhos. No tocante à publicação de contos em sua forma original, um único conto de Conan aparece no livro Magos, segundo volume da série de coletâneas Os Mundos Mágicos da Fantasia, coordenada por Isaac Asimov, Martin H. Greenberg e Charles G. Waugh e publicada no Brasil pela Melhoramentos no início da década de 90. Em 1995, a editora Unicórnio Azul lançou cinco edições de Conan - Espada & Magia, contendo contos originais de Howard e também trabalhos de De Camp & Carter. A editora Conrad publicou dois volumes, atualmente fora de catálogo, com contos do bárbaro. Por fim, agora, aproveitando o embalo do novo filme, a Generale nos traz esta edição que inclui o romance A Hora do Dragão e mais três contos. Edição essa da qual vejo que terei que falar em outra oportunidade, pois já escrevi muito e não posso concluir sem dizer uma palavra sobre os filmes. Vamos a isso...
Conan nas telas – then & now...
Sempre intrigou os fãs de Robert E. Howard e de filmes de aventuras em geral o porquê de Conan e seu universo terem sido tão pouco explorados pelo cinema, fato esse que se torna ainda mais inexplicável se pensarmos no Tarzan de Edgar Rice Burroughs e nas dezenas de filmes já rodados sobre ele, com vários atores diferentes. Ora, o bárbaro de Howard teve a mesma origem do homem-macaco de Burroughs - as pulp magazines das décadas de 20 e 30 -, é um herói de nível, no mínimo, comparável, e com possibilidades infinitamente maiores, considerando o mundo onde viveu e a longa e variada carreira que teve. Apesar disso, e por alguma razão, até este ano só existiam dois filmes sobre as aventuras do cimério: Conan, o Bárbaro (1982) e Conan, o Destruidor (1984), ambos estrelados por Sua Excelência (respeito, afinal o homem já foi governador), o austríaco naturalizado ianque Arnold Schwarzenegger. E, verdade seja dita, se Schwarzenegger jamais chegou a ser um ator digno desse nome, nesses filmes, ainda em início de carreira, praticamente deu um novo sentido à palavra "canastrão". O máximo que se pode dizer a seu favor é que sempre esteve perfeitamente consciente de suas limitações e nunca tentou posar de prodígio dramático: alguns anos depois, comentou, bem-humorado, que até o cavalo que montara em Conan, o Bárbaro era mais expressivo que ele. Apesar disso, esse filme, dirigido por John Milius, marcou época, e há excelentes razões para que seja visto... Só que, por ser uma adaptação extremamente livre, não é aconselhável como primeiro contato com o personagem, embora um enorme número de pessoas (incluo-me) tenha conhecido Conan justamente por meio dele.
O roteiro foi criado independentemente por seus argumentistas (o próprio John Milius e Oliver Stone), tendo os escritos de Howard apenas como fonte de inspiração. Por exemplo, a infância e adolescência atribuídas a Conan no filme não têm qualquer compromisso com a (incompleta e fragmentada) biografia do personagem deixada por Howard: embora o escritor tenha registrado, em cartas e anotações, que a tribo de Conan vivia perpetuamente envolvida em conflitos - fosse com aesires, vanires, hiperbóreos, ou com outros clãs cimérios -, não escreveu em parte alguma que ela teria sido massacrada, ou que o próprio Conan tivesse crescido como escravo. Na verdade, Howard chegou a mencionar que a primeira batalha para valer de que Conan participou foi numa ocasião em que vários clãs da Ciméria uniram forças, pondo temporariamente de lado suas rixas, para atacar e arrasar a fortaleza de Venarium, construída pelos aquilonianos em solo cimério como primeiro passo de uma tentativa de conquista - e o escritor diz explicitamente que Conan teria então uns 15 anos, idade na qual, a dar-se crédito ao filme, ainda deveria estar movimentando uma pedra de moinho. Portanto, vejam o filme, mas não acreditem cegamente nele.
O vilão principal, o feiticeiro Thulsa Doom (interpretado por James Earl Jones, de longe a melhor atuação do filme), nunca enfrentou Conan nos livros ou nos quadrinhos: em vez disso, era o arquiinimigo do rei Kull, que teria vivido oito mil anos antes. O arqueiro e ladrão Subotai (Gerry Lopez), até onde sei, foi criado para o filme, enquanto Valéria (Sandahl Bergman), mostrada como sendo uma ladra e o amor da vida de Conan, na verdade era uma pirata, e apenas uma entre as muitas mulheres de sua carreira. É verdade que há citações a várias histórias de Howard: a sequência em que Conan encontra uma espada num velho túmulo foi tirada do conto A Coisa na Cripta, enquanto a invasão da fortaleza de Thulsa Doom tem vários detalhes que lembram A Torre do Elefante, sem mencionar que a promessa de Valéria a Conan ("Se eu estivesse morta e você lutasse por sua vida, eu voltaria do inferno para ajudá-lo!") é feita, na verdade, pela rainha pirata Bêlit - ela, sim, o grande amor do cimério, ou ao menos de sua juventude -, no conto A Rainha da Costa Negra (1934). E há mais detalhes assim. Ao mesmo tempo, o filme tenta ter o seu quantum satis de atualidade ao mexer com o tema da sedução de jovens por seitas estranhas, problema que havia alcançado dimensões preocupantes em diversos países na época. Por fim, é impossível negar que o clima épico e grandioso está lá, que há inúmeras cenas visualmente soberbas, que o ritmo e a narrativa prendem, que a magnífica trilha sonora de Basil Poledouris faz a sua parte (Anvil of Crom está entre as músicas com maior poder de causar arrepios de empolgação que já ouvi) e que o final é bem sacado por abrir possibilidades ilimitadas para os próximos filmes que viessem a ser rodados, ainda que isso tenha sido muito pouco explorado mais tarde. Resumindo tudo, Conan, o Bárbaro atualmente figura na minha coleção de DVDs, como acredito que deva figurar na de todo apreciador de fantasia e de aventuras épicas.
Pena que seja, até o momento, o único filme sobre Conan merecedor de tal distinção!...
Conan, o Destruidor, não chega a ser um desastre, mas decepcionou tremendamente quem esperava ver uma continuação digna do primeiro filme. É apenas uma aventura feijão-com-arroz, do tipo que esperaríamos encontrar em alguma edição meia-boca d'A Espada Selvagem de Conan lá por meados dos anos 90, quando tanto as histórias originais de Conan escritas por Howard quanto as melhores criações de Roy Thomas e da dupla L. Sprague de Camp & Lin Carter já haviam sido todas publicadas e a revista tentava sobreviver com o material (muitas vezes pífio) disponível. No roteiro, a rainha-bruxa Taramis (nome emprestado de uma personagem de uma história de Howard, embora a personagem em si não seja a mesma) contrata Conan para escoltar sua sobrinha Jenna (idem) na busca do Chifre de Dagon, um artefato de magia divina extremamente poderoso e que somente Jenna, uma predestinada, pode tocar. O bárbaro é acompanhado por um amigo ladrão metido a engraçado (Tracey Walter) e pelo gigantesco guarda-costas de Jenna, Bombaata (Wilt Chamberlain); no caminho juntam-se ao grupo o mesmo mago do filme anterior (Mako) e uma guerreira negra, Zula (Grace Jones). O Chifre está guardado na fortaleza do mago Thoth Amon (Howard parece ter criado esse personagem meio às pressas, batizando-o com os nomes de dois deuses egípcios escolhidos ao acaso, apenas para que Conan tivesse um grande mago do mal como inimigo, assim como Kull tinha Thulsa Doom; de qualquer forma, embora nas histórias originais tenha dado muita dor de cabeça ao herói durante muito tempo, aqui ele aparece reduzido a um vilão de ocasião). Há lutas, monstros, armadilhas, muitas cabeças decepadas e sangue à vontade, mas falta um algo mais que pudesse ter feito o filme sobressair acima do comum. Conan, o Destruidor vale para um passatempo inconsequente, mas não ficará marcado na memória como seu antecessor.
E o que dizer do Conan versão 2011? Que é um festival de clichês? Bem, isso poderia ser dito dos dois filmes anteriores, e, vamos concordar, clichê não é sempre e necessariamente uma coisa ruim. Porém, dependendo de como são usados, os clichês podem dar forma a alguma coisa que empolgue - ou não.
O novo filme começa como nenhum filme de Conan pode deixar de começar: uma voz que poderia pertencer a algum velho erudito recitando "Entre os anos em que os oceanos tragaram a Atlântida e a ascenção dos filhos de Aryas..." Aqui, porém, essa introdução é emendada com uma história que repercutirá diretamente na aventura a ser narrada: no
antigo e sombrio reino de Acheron, que teria existido antes do mundo hiboriano tomar forma, foi fabricado um artefato maligno, uma máscara capaz de dar poderes inimagináveis àquele que a usar - só que, para isso, precisa ser "abastecida" com o sangue de moças virgens. Quando o reino de Acheron caiu, as tribos bárbaras vitoriosas dividiram a máscara em três partes, "para que ninguém mais viesse a usar seus poderes malignos" (dãã... Embora o filme nada diga a respeito, suponho que essa máscara tivesse algum tipo de magia que a tornava indestrutível, mais ou menos como o Um Anel de Sauron; é a única explicação para que os bárbaros não a tenham destruído de uma vez e encerrado o assunto. Aliás, por que será que de repente me lembrei de Hellboy II?). E, como seria inevitável que acontecesse, séculos depois surge um sinistro vilão disposto a tudo para encontrar as três partes e ganhar os poderes ilimitados que a máscara promete. Para falar a verdade, o vilão em questão poderia ser mais sinistro: Khalar Zym (Stephen Lang) lembra demais o zelador Argo Filch, dos filmes de Harry Potter, para ser capaz de meter medo em alguém.
Entrementes, o pequeno Conan nasce no seio da tribo ciméria que guarda um dos pedaços da máscara - e nasce, literalmente, num campo de batalha (Robert E. Howard escreveu de passagem algo a respeito). Em poucos anos mostra a que veio, vencendo rapazes bem mais velhos nas rudes competições atléticas que acontecem na tribo e, de quebra, matando alguns pictos, inimigos hereditários de seu povo, antes mesmo de ter idade para fazer a barba. Porém, antes que ele tenha tempo de se tornar um guerreiro de fato, Khalar Zym descobre o paradeiro do pedaço da máscara e vem buscá-lo, de modo que a tribo (de novo) é dizimada, com o acréscimo de um requinte de crueldade: Khalar obriga Conan a assistir à morte de seu pai e mestre, o ferreiro e guerreiro Corin (Ron Perlman - puxa, Hellboy está me perseguindo hoje), ironicamente vitimado pelo mesmo elemento com o qual ganhava a vida: ferro derretido.
Não é difícil imaginar a vida de privações e perigos que o jovem cimério enfrenta a partir daí, mas isso fica implícito: o ator adolescente sai de cena e é substituído por Jason Momoa, o Conan "definitivo" - e preciso dizer: Momoa visivelmente se esforça, mas, embora eu bem que tenha tentado, não consigo achar que ele tenha a cara do personagem: talvez seja por ser havaiano, mas sempre vai me lembrar mais um surfista bombado que um guerreiro bárbaro. Como seria mais do que previsível, o cimério vai atrás de Khalar Zym para vingar a morte do pai, só que, a essa altura, o vilão está muito próximo de conseguir o que quer: já juntou todos os pedaços da máscara e só precisa encontrar uma mulher de "sangue puro" (seja lá o que isso queira dizer) para sacrificar a fim de ativar o poder da coisa. Essa é Tamara (Rachel Nichols), que está sendo educada para sacerdotisa até o templo onde vive ser atacado pela horda de Khalar Zym e todas as suas colegas e mestres serem chacinados. Ela própria escapa graças a Conan, e, se até aí não tinha havido surpresas, daí em diante muito menos: a bela mocinha passa quase todo o resto do filme a tiracolo do herói musculoso enquanto ele despacha filas e filas de vilões e monstros, e, a certa altura, é salva por ele de um destino trágico, por um triz, é claro. Gritando muito o tempo todo.
Visualmente, o novo Conan é cansativo em várias partes: a tentativa de evocar um clima "sombrio" faz com que haja muitas cenas escuras, onde os olhos do espectador se fatigam tentando acompanhar a ação no que parece ser apenas uma confusão de formas indistintas em movimento - em 3D fica ainda pior -, e, quando essas cenas terminam, tem-se sempre a sensação de haver perdido alguma coisa. O diretor alemão Marcus Nispel poderia ter aprendido com 300, onde o uso inteligente da fotografia em sépia dá o tom soturno sem prejudicar a visibilidade.
Muito do que eu disse sobre Conan, o Destruidor também se aplica a Conan, o Bárbaro 2011: não é propriamente uma catástrofe, e não se pode negar que tem tudo o que uma aventura do gênero sword and sorcery que se preza (e até as que não se prezam) precisa ter: sequências vertiginosas de ação, lutas bem coreografadas, intervenções sobrenaturais, monstros, cenários exóticos... O problema é que, depois de assisti-lo, fica-se com a sensação de que, com tudo isso, teria sido possível fazer um filme muito melhor. Sabe como é quando você prova um prato que, embora tenha levado todos os ingredientes que devia, mesmo assim ficou insosso, porque faltou ao cozinheiro aquele "pulo do gato"? Resumindo: o filme até consegue seu objetivo de divertir - mas está muito, muito longe de fazer com que tenham valido a pena os 27 anos de espera para ver Conan nas telas novamente. Um filme sword and sorcery pode, sim, ir além de ser uma aventurazinha vulgar: pode empolgar, encher os olhos e a imaginação, inspirar e emocionar. Só que ainda continuamos esperando por uma produção que se mostre capaz de provar tudo isso: o filme de Nispel, definitivamente, não prova.
