Sexta-feira, Março 30, 2012

Jogos Vorazes

Mais uma vez, muita gente vai torcer o nariz para uma coisa legal só porque ela está bombando na mídia - fala-se de Jogos Vorazes como uma "nova grande franquia", no rastro de Harry Potter ou Crepúsculo, o que significa que a indústria cultural está contando com ele para faturar os tubos, não só com livros e filmes, mas com todo tipo de memorabilia imaginável e com uma fornada de imitações mais ou menos óbvias, e isso será suficiente para que muitos nem sequer levem a sério a possibilidade de lê-lo. Como continuo acreditando que nenhum "dogma" deve ser colocado acima do julgamento individual, pus os preconceitos de lado e li.

E, vejam só, o que concluí foi que, se Jogos Vorazes vier mesmo a se tornar uma febre como aqueles outros, será preciso reconhecer que a autora Suzanne Collins visou - e acertou - um alvo bastante diferente do de suas antecessoras. Harry Potter, embora, em seus volumes finais, tenha-se permitido lidar com climas pesados e tratar de questões bastante sérias, começou de uma maneira leve, quase infantil mesmo - como escrevi em outro post, J. K. Rowling apostou em que uma geração de leitores amadureceria junto com o herói. Crepúsculo, por sua vez, é uma releitura romantizada dos vampiros do folclore e da literatura gótica. Nada disso se aplica a Jogos Vorazes. Há romance, sim, mas ele não é a mola propulsora da história. Trata-se de um universo bem mais sombrio e de um enredo bem mais cru e brutal que o de qualquer "grande franquia" que tenhamos visto recentemente. Uma aposta num público diferente?

Estamos alguns séculos no futuro. No local onde antes existiam os Estados Unidos da América, há agora um país chamado Panem, governado pelo Capitólio (no original, "the Capitol", que na tradução virou "a Capital"... Tradutores sem cultura me tiram do sério) e formado por doze distritos designados simplesmente por números. Os cidadãos do Capitólio vivem uma vida despreocupada e de abundância material, enquanto os habitantes dos distritos trabalham duramente para garantir a sobrevivência - uma sobrevivência bem mais magra e penosa em alguns deles do que em outros: aparentemente, os distritos são numerados de acordo com uma ordem, dos mais ricos para os mais pobres. Cada distrito exerce uma atividade principal: agricultura, pesca, mineração e assim por diante. Sabe-se que, décadas antes do início da história, houve uma guerra na qual os distritos, que então eram em número de 13, tentaram libertar-se do domínio do Capitólio. Doze deles foram subjugados, e o último, destruído por completo. A partir daí, o Capitólio promove anualmente os Jogos Vorazes - um evento para o qual cada distrito é obrigado a enviar um casal de jovens, de 12 a 18 anos, que serão colocados em uma imensa arena a céu aberto, onde lutarão entre si até que apenas um reste vivo. Esse retorna rico e famoso ao seu distrito, para servir (conforme a propaganda oficial) como uma "lembrança da benevolência e generosidade" do Capitólio. Detalhe: a competição, ou antes, a carnificina, é transmitida ao vivo, em rede nacional, pela televisão. Esses jovens recebem o nome de "tributos". Enquanto, na maioria dos distritos, é necessário um sorteio geral entre toda a população capaz dentro da faixa etária visada, nos distritos mais ricos, notoriamente no 1 e 2, existem os assim chamados "Carreiristas", que são treinados intensivamente durante anos e, ao completarem 18, oferecem-se como voluntários. Desnecessário dizer que são quase sempre esses que vencem.

A heroína narradora é Katniss Everdeen, uma garota de 16 anos que vive no Distrito 12, onde a atividade econômica predominante é a extração de carvão. O pai de Katniss morreu cinco anos antes, numa explosão na mina onde trabalhava; a mãe caiu numa espécie de estupor causado pela depressão, ficando durante meses sem falar ou fazer coisa alguma, o que forçou Katniss, então com onze anos de idade, a, nas suas próprias palavras, assumir a liderança da família, tendo que, de algum modo, garantir sua própria sobrevivência, a da mãe e a da irmã, Prim, de sete anos. Felizmente, o Sr. Everdeen não era apenas um mineiro, mas também um homem que sabia como mover-se numa floresta, caçar e coletar plantas comestíveis ou medicinais, e, antes de morrer, teve tempo de ensinar um pouco disso à filha mais velha. Daí em diante, Katniss passa a maior parte do tempo perambulando pela região selvagem que fica além da cerca de seu distrito, seu arco garantindo carne para a mesa de sua família e para ser trocada pelas outras coisas de que precisam. Ter sido obrigada a arcar com tanta responsabilidade cedo demais fez de Katniss uma jovem aparentemente fria e dura, acostumada a reprimir as emoções. Só Prim e, em bem menor grau, o amigo e companheiro de caçada, Gale, conseguem, uma ou outra vez, fazer com que sorria ou demonstre algum débil traço de capacidade de interação afetiva.

É nesse pé que as coisas estão quando chega o dia da "Colheita" - o sorteio dos participantes - destinada à septuagésima quarta edição dos Jogos. Pela primeira vez, não só o nome de Katniss estará na urna, mas também o de Prim, que completou 12 anos desde a edição anterior. Como crianças dessa idade não têm, na prática, a menor chance contra competidores mais velhos, muito mais fortes e hábeis, a organização dos Jogos criou uma maneira de reduzir as chances de que sejam sorteadas: as inscrições são cumulativas, quer dizer, os de 12 anos têm seus nomes inscritos apenas uma vez, os de 13, duas, os de 14, três, e assim por diante até os 18. Além disso, há um sistema de distribuição de tésseras (um sinônimo arcaico para senhas) que dão direito a pequenas rações de grãos, mas, em troca de cada uma, o jovem ou a jovem tem seu nome inscrito uma vez a mais. Embora ela própria já tenha pego muitas tésseras para afastar de casa o fantasma da fome enquanto ainda não sabia caçar muito bem, Katniss jamais permitiria que Prim fizesse o mesmo. O que acontece é que, mesmo todas as probabilidades estando contra, Prim é sorteada logo em sua primeira vez, e Katniss, sabendo que a irmã estaria indo para uma morte certa, apresenta-se como voluntária no lugar dela.

(Parêntese: lendo a narrativa a respeito da Colheita, é impossível não lembrar de outro sorteio muito parecido, o que era realizado entre os jovens de Atenas para selecionar os que seriam levados a Creta para serem devorados pelo Minotauro. Collins ganhou alguns pontos comigo com essa citação clássica indireta.)

O outro tributo do ano é Peeta (uma variação futurista de Peter?) Mellark, filho do padeiro da cidade. Como Katniss observa, a boa alimentação e o trabalho constante sovando massa e carregando pesados sacos de farinha fizeram dele um rapaz forte e bem constituído, aparentemente capaz de ter alguma chance nos Jogos. O que ela não esperava era que, além disso, Peeta também se mostrasse um ator nato, capaz de tornar impossível saber quando está ou não mostrando seus verdadeiros sentimentos, seja ao dizer-se apaixonado por ela ou ao blefar na arena. Enfim, esse sujeito se daria bem nos revoltantes reality shows do século XXI. E, de qualquer forma, com ou sem paixão, há um fato implacável pairando sobre suas cabeças: só um pode sair vivo da arena. Na improvável hipótese de os outros 22 tributos morrerem e só os dois restarem, um será obrigado a matar o outro.

Mencionar os reality shows leva-me a outro ponto: eles são sem dúvida um dos muitos elementos aos quais Collins está fazendo referência em sua obra. Uma referência, por sinal, nada lisonjeira - e, vamos ser francos, eles não merecem outra coisa. Antes de os Jogos terem início, os tributos recebem um "polimento" nas mãos de estilistas, são entrevistados na TV, apresentados ao público e tudo o mais, e precisam angariar simpatias, pois isso pode significar a diferença entre a vida e a morte na arena: os Jogos Vorazes dependem de patrocinadores, que, mediante o pagamento de quantias obscenas, podem mandar algum tipo de ajuda para seus tributos favoritos, sob a forma de alimento, remédios ou outros itens vitais durante a competição. Naturalmente, os tributos mais populares têm mais chances de receber esses donativos. E, para ganhar popularidade, o que acontece, tanto nos Jogos Vorazes quanto nos Big Brothers da vida, é que as pessoas fingem ser o que não são. Embora a palavra realidade faça parte do próprio nome desse tipo de programa, tudo parece ser uma grande armação. Nos realities reais (dãã...), os participantes são, via de regra, pessoas tão rasas, vulgares e sem qualquer traço distintivo marcante, que a produção e os apresentadores procuram grudar um rótulo berrante em cada um para que o público consiga, pelo menos, distinguir um do outro: este é o palhaço, aquele é o atleta, aquele outro é o maquiavélico, e assim por diante. Romances de ocasião também ajudam. Da mesma forma, Peeta e seu mentor, Haymitch (mentor é uma pessoa que já venceu os Jogos uma vez e agora auxilia e orienta os atuais tributos) arquitetam cuidadosamente, juntos, o romance dele com Katniss, a fim de vender a imagem dos dois como os "amantes desafortunados do Distrito 12", o que faz com que sobressaiam e atraiam a atenção do público sedento de emoção - só que Peeta, o enigma humano, mantém tanto Katniss quanto o leitor em suspense sobre se isso tudo é teatro ou se ele realmente gosta dela. Também é fato que, tanto nos realities quanto nos Jogos Vorazes, forjam-se alianças que são necessariamente temporárias, pois, caso um grupo de aliados derrote seus adversários, não restará outra alternativa a não ser apunhalarem-se uns aos outros logo depois. A única diferença é que, na arena de Panem, o apunhalamento é literal.

Registre-se também que, como não podia deixar de ser em se tratando de uma história sobre pessoas que lutam até a morte para a diversão de outras, há citações bastante claras aos combates de gladiadores da Roma antiga, o que aparece até mesmo no fato de muitos dos habitantes do Capitólio terem nomes romanos: Caesar, Claudius, Portia, Cinna... Capitólio, aliás, embora o tradutor Alexandre D'Elia, pelo visto, não saiba disso, era o nome de uma das sete colinas de Roma, onde ficava o templo de Júpiter Capitolino, protetor da cidade. Séculos mais tarde, o nome foi dado ao prédio do centro legislativo dos Estados Unidos, em Washington. A qual dos Capitólios estaria Collins fazendo alusão? Acho que a ambos. O próprio nome do país onde tudo acontece também não foi escolhido gratuitamente. Panem é pão em latim, e faz parte de uma das mais célebres expressões proverbiais da História: Panem et circenses, ou seja, 'pão e atrações de circo', significando que, enquanto o povo tiver a barriga cheia e alguma distração que não demande muito cérebro, ele não causará problemas aos poderosos, façam estes o que fizerem. Tudo a ver com Jogos Vorazes e, infelizmente, também com a nossa realidade.

Certo, não há nada de radicalmente inovador na obra de Suzanne Collins: quadros sombrios de civilizações distópicas no futuro existem em quantidade na literatura e no cinema de ficção científica (1984, Blade Runner, O Exterminador do Futuro, e isso mal serve de início se quisermos fazer uma lista), e a ideia de um programa de TV ao vivo com pessoas lutando e matando-se já aparecia num filme de 1987, The Running Man, exibido no Brasil como O Sobrevivente, com Arnold Schwarzenegger, que, por sua vez, era livremente inspirado (e bota livremente nisso...) num romance de Stephen King publicado em 1982, mas não dá para tirar o mérito da autora se ela soube recombinar esses elementos e criar algo tão capaz de prender a atenção quanto Jogos Vorazes, que, de quebra, ainda vale por uma intencional e louvável cuspida na cara de certos setores da indústria do entretenimento em nosso dias. As sequências, Em Chamas e A Esperança, estão desde já na minha lista de leitura.

Terça-feira, Fevereiro 28, 2012

A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato

Eu não conhecia o escritor espanhol Eduardo Mendoza até questão de dias atrás. Então, enquanto esperava por um voo no aeroporto de Porto Alegre, entrei na livraria LaSelva e, na caixa de "oportunidades", encontrei este livro por menos de dez reais. Comprei-o; ao desembarcar no meu destino poucas horas depois, já tinha lido metade dele, pois é uma leitura fácil sem ser rasa, que prende a atenção e, de quebra, divertidíssima. O livro encaixa-se com perfeição na curiosa definição que aparece na sinopse da contracapa: "cruzamento de romance histórico, romance policial, hagiografia e paródia de todos esses gêneros".

Pompônio Flato (nenhum prêmio por identificar o trocadilho do último nome) é um filósofo e erudito romano do primeiro século de nossa era, que, levado por suas pesquisas de história natural, viaja até os confins da Palestina em busca de uma fonte cujas águas teriam a propriedade de aumentar a sabedoria de quem as bebe. Depois de provar a água de diversas fontes sem nada conseguir além de um persistente desarranjo intestinal, acaba perdido no deserto, sem montaria, sem dinheiro e praticamente só com a roupa do corpo. É socorrido por um grupo de mercadores árabes, que o levam em sua companhia até cruzarem com a comitiva de um magistrado romano, Ápio Pulcro, que se dirige a uma cidadezinha da Galileia a fim de administrar justiça num caso de assassinato. Pompônio então se junta a Pulcro, que promete conseguir-lhe meios de voltar a Roma assim que tiver resolvido o assunto. E, sem ter planejado isso, o nosso filósofo acaba chegando à tal cidadezinha, denominada Nazaré.

O caso em questão é a respeito do assassinato de um certo Epulão, o homem mais rico da cidade, que foi encontrado morto em sua biblioteca, com a porta e a janela fechadas e sem que nenhuma fechadura tivesse sido forçada. A arma do crime, encontrada no local, foi um formão para madeira, o que faz com que as acusações recaiam sobre o carpinteiro que estava fazendo um serviço para o morto e em razão disso tinha acesso ao interior de sua casa. O nome do carpinteiro: José.

As autoridades judaicas locais já decidiram que José é culpado e o condenaram à morte, mas tal sentença não pode ser aplicada sem ser antes referendada por uma autoridade romana. Ápio Pulcro, entediado e ansioso por partir, dá logo o seu aval e fica marcada a execução para o entardecer do dia seguinte. Entretanto, Pompônio é procurado pelo filho do condenado, um menino muito esperto e ao mesmo tempo adoravelmente ingênuo, Jesus, que lhe oferece parte das economias do pai para que sirva ao mesmo tempo de detetive e advogado de defesa, a fim de descobrir o verdadeiro assassino e provar a inocência do carpinteiro. Separado de seus recursos e sem nada para fazer enquanto espera a hora de voltar para casa, o filósofo aceita.

Assim tem início uma parceria insólita e que dá origem a situações ora interessantes, ora muito engraçadas. Pompônio tem como instrumentos sua mente lógica de filósofo e a habilidade oratória que lhe permite extrair de vários habitantes da cidade as informações de que necessita; o menino Jesus, por seu turno, possui o conhecimento do terreno e dos costumes locais. Os dois interagem com vários personagens já conhecidos de quem leu os Evangelhos e com outros que é fácil imaginar que poderiam ter vivido naquela época e região: operários, comerciantes, sacerdotes, prostitutas, soldados, mendigos. Um destes últimos é Lázaro, o leproso (não confundir com o amigo de Jesus que seria ressuscitado por ele: os judeus possuíam poucos nomes próprios, de modo que a maioria das pessoas tinha inúmeros homônimos), que, junto com o rico Epulão, mais tarde se tornaria personagem de uma parábola de Jesus. No decorrer das investigações, Pompônio vai ensinando a Jesus um pouco da filosofia e da mitologia greco-romanas - e, para sua surpresa, também aprendendo algumas coisas com o menino. Como ocorre numa boa trama policial, a história vai se desenrolando como um tapete no ritmo das pistas encontradas, pistas essas que vão se encadeando até conduzir a um final clássico para o gênero - ou seja, inesperado.

A história é contada em primeira pessoa, sob a forma de uma carta que Pompônio redige a um amigo, um tal Fábio, e a linguagem é bem a que se esperaria de um filósofo romano, o que resulta fazer de A Assombrosa Viagem... uma leitura deliciosa para quem possui um bom vocabulário, mas talvez impraticável para quem não preenche esse requisito. Mendoza explora com habilidade as personalidades que os personagens bíblicos poderiam ter tido - personalidades plausíveis com base no que sabemos sobre eles: quando Maria, mãe de Jesus, conversa com Pompônio, humildemente declara-se uma "mulher ignorante" (que no livro está grafado "ingnorante", num dos mais pavorosos erros de digitação/revisão que já vi), mas seu próprio discurso desmente isso, pois ela demonstra uma visão aguçada e inteligente da sociedade de seu país e mostra-se desejosa de que seu filho aprenda as coisas de que necessitará para viver no "mundo lá fora", razão pela qual vê com bons olhos o laço afetivo e a relação de mestre e discípulo que se formaram entre o menino e o filósofo, a despeito de este último ser pagão, fato que, aos olhos da maioria dos judeus da época, anularia por si só qualquer boa qualidade que ele pudesse ter.

Sempre sob o filtro da ironia e do bom humor, o livro também enfoca a diferença essencial que havia entre os judeus e os demais povos que faziam parte do Império Romano: um zelo religioso muitas vezes intransigente, que se sobrepunha a qualquer ditame lógico ou constatação prática. Explicando mais claramente: logo que um país era conquistado, seus habitantes naturalmente tomavam-se de um ódio apaixonado contra Roma e tudo o que dela viesse - mas algum tempo depois, se não eles próprios, seus filhos e netos aprendiam a ver as vantagens de fazer parte do Império, o que, via de regra, significava uma vida mais segura e farta do que antes, além de boas estradas, banhos públicos, planejamento urbano, incremento da economia e da cultura, e um sistema de justiça diferente da tradicional "lei do mais forte", que era a única lei que a maioria desses povos conhecia até então. Para muita gente, esses benefícios concretos pesavam mais que uma noção abstrata como a de liberdade, de modo que acabavam passando a cooperar voluntariamente com os romanos; decorrendo mais tempo, a própria separação entre conquistadores e conquistados tornava-se indistinta, e gradualmente ocorria uma miscigenação étnica e cultural, que está na origem de não poucos povos modernos. Já com os judeus, ou ao menos com certos setores de sua sociedade, isso não acontecia. Para esses, religião e política não apenas estavam estreitamente ligados: eram, na prática, uma coisa só, de modo que, para eles, era ao mesmo tempo uma questão de virtude e de patriotismo manterem-se impermeáveis a qualquer influência cultural e avessos a qualquer tipo de cooperação ou tolerância.

Há pouco a reclamar de Mendoza no quesito de conhecimentos históricos e bíblicos, mas não deixei de notar uma séria distorção temporal: primeiro Ápio Pulcro conta a Pompônio ter sido partidário de Júlio César, mas que, depois da morte deste, teria passado para a facção de Brutus e Cássio para lutar contra Otávio (depois imperador com o nome de Augusto, e que era quem governava o Império no tempo da narrativa); mais tarde, um soldado de nome Quadrato declara haver lutado sob as ordens de Pompeu, contra César, na batalha de Farsália. Ora, se Jesus era então um menino, e se as Metamorfoses de Ovídio haviam sido publicadas recentemente (Pompônio menciona esse livro), então já deveriam ter passado mais de 50 anos desde a morte de Júlio César. Claro, pode ser tudo bravata de um soldado pouco instruído e sem-noção, o que, aliás, estaria plenamente de acordo com o estilo irônico do livro. Por outro lado, deixou-me um tanto desconfortável o fato de o tempo dos verbos ficar variando a toda hora do presente para o pretérito e vice-versa - coisa que costumo apontar como uma falha de redação quando alguém me pede um parecer sobre algum texto. Mas não é nada que não dê para relevar, e quem ler o livro irá sem dúvida divertir-se muito.

Sexta-feira, Janeiro 13, 2012

Queda de Gigantes

Vou confessar: eu tinha um certo preconceito com Ken Follett. Não sei por que, mas ele sempre me pareceu ser um outro Sidney Sheldon - que, por sua vez, embora não seja o melhor escritor do mundo, está longe de ser o pior: como já escrevi antes, é incomparavelmente melhor ler Sidney Sheldon do que não ler coisa nenhuma. Em todo caso, neste momento estou dando a mão à palmatória: como sempre acontece com os preconceitos, esse ruiu assim que travei verdadeiro conhecimento com a coisa sobre a qual pensava saber algo. Queda de Gigantes é um livraço, e não só por ter mais de 900 páginas. Aliás, se não fosse um livraço também no outro sentido, chegar ao fim de um livro dessa extensão seria praticamente impossível.

Este é o primeiro volume de uma trilogia intitulada O Século, que, conforme informações presentes nas orelhas do livro, prosseguirá com outro a respeito da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, e um terceiro sobre a Guerra Fria. Queda de Gigantes está ambientado durante a segunda década do século XX, e seu título, muito bem dado, refere-se ao colapso dos impérios coloniais europeus que haviam ditado as regras ao resto do planeta durante os dois séculos anteriores. Embora esses impérios já mantivessem seu equilíbrio com dificuldade há décadas, um evento específico precipitou o fim quase simultâneo de todos eles e redesenhou de forma radical o mapa geopolítico da Europa. Esse evento foi a Primeira Guerra Mundial, que serve de eixo à narrativa de Follett.

O livro não tem propriamente um protagonista, pois não há um personagem único que capitalize as ações mais importantes da narrativa. Ao invés disso, a história foca os acontecimentos da vida de cinco diferentes famílias: os Williams, galeses; os Peshkov, russos; os Fitzherbert, ingleses; os Von Ulrich, alemães; e os Dewar, norte-americanos. Enquanto as duas primeiras famílias são das classes trabalhadoras, as três últimas são privilegiadas: tanto os Fitzherbert quanto os Von Ulrich, além de ricos, fazem parte das aristocracias seculares de seus respectivos países; já os Dewar, embora sem origens ilustres, são igualmente abastados. Como romance histórico extremamente bem escrito, Queda de Gigantes leva a um alto grau de maestria aquilo que define esse gênero: uma história dentro da História, personagens ficcionais movendo-se sobre um pano de fundo real, reconstituído com base numa pesquisa extensa e minuciosa, que englobou desde táticas e armamentos de guerra até o que era servido tanto nas mesas humildes quanto nas mais luxuosas, e o que estava na moda em matéria de música e vestuário na época - além, é claro, da intrincada situação política que o mundo vivia.

A princípio, o leitor pode até achar cansativo o grande número de personagens cujas características, backgrounds e atos é preciso lembrar e concatenar a fim de compreender o desenvolvimento do romance, mas, aos poucos, o próprio entrelaçamento de todas essas vidas vai tornando essa tarefa mais fácil: um personagem está ligado a outro, que está ligado a outro, e assim sucessivamente, numa cadeia que abrange vários países. O galês Billy Williams, um jovem mineiro e mais tarde soldado, é o que de mais próximo do ideal heroico encontramos no livro: corajoso, gentil, dono de um caráter irrepreensível, Billy é filho de David Williams, líder sindical na pequena cidade mineradora de Aberowen, no país de Gales, e irmão de Ethel, uma jovem bonita, inteligente e ambiciosa que trabalha como criada na mansão dos Fitzherbert, donos das minas onde trabalha quase toda a população da cidade. O atual chefe da rica família é o jovem conde Edward Fitzherbert, chamado pelos amigos de "Fitz", um homem vaidoso e arrogante, como seria de se esperar de alguém de sua posição social; apesar de não ser desprovido de bons sentimentos, Fitz parece ter um caráter demasiado fraco para agir de acordo com sua consciência, quando isso significar desafiar convenções e talvez perder o apreço de seus pares. Em compensação, sua irmã, lady Maud, é uma feminista convicta, que, ao invés de gastar seus dias no absoluto ócio que era considerado a "atividade" normal para as mulheres da aristocracia inglesa de então, dedica-se com ardor à causa do voto feminino, que era uma das grandes lutas sociais e políticas em andamento na época. Maud acaba apaixonando-se pelo jovem diplomata Walter Von Ulrich, antigo colega de colégio de Fitz e filho de Otto Von Ulrich, também da carreira diplomática, amigo e conselheiro direto do Kaiser alemão Wilhelm (ou Guilherme) II. Ainda falando em Fitz, o conde é casado com Elizaveta, apelidada de "Bea", uma princesa russa, que, juntamente com seu irmão, o príncipe Andrei, tem um histórico de anos de abusos e arbitrariedades para com camponeses e operários em seu país natal. Entre esses, estão os irmãos Grigori e Lev Peshkov, atualmente trabalhando numa metalúrgica em São Petersburgo, que perderam o pai na infância, enforcado por ordem de Andrei, e a mãe na adolescência, morta pelos guardas do czar ao participar de uma manifestação da classe operária. Com cinco anos de diferença, e tão parecidos fisicamente que as pessoas chegam a confundi-los, os dois irmãos são personalidades opostas: Grigori é um sujeito tranquilo, sério e responsável, acostumado a fazer as vezes de pai e mãe para o irmão mais novo - que, por sua vez, é um boêmio e mulherengo incorrigível, chegado ao jogo e à vodka. Grigori sonha em emigrar para os Estados Unidos, que ele e muitos outros russos da época veem como uma espécie de terra prometida, pelo simples fato de que lá não existe czar nem nobreza, e de que os donos de terras ou de indústrias não podem mandar açoitar ou enforcar seus trabalhadores a seu bel-prazer (!). Só que, quando ele finalmente consegue juntar dinheiro suficiente para sua passagem de navio, devido a um imprevisto quem acaba viajando é Lev, deixando o pobre Grigori sem nada e, de quebra, responsável pela namorada grávida que o irmão deixou para trás.

E, como Grigori acaba descobrindo, se fosse só isso ele ainda não teria do que se queixar... É 1914 e o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-húngaro, é assassinado na cidade bósnia de Sarajevo, pelo estudante e nacionalista sérvio Gavrilo Princip. Em represália, os austríacos e seus aliados alemães invadem a Sérvia, que está sob a proteção da Rússia... Inicia-se uma reação em cadeia que mexe com antigos rancores e interesses políticos e econômicos de todas essas e de outras nações, como a França e a Grã-Bretanha, ambas aliadas à Rússia. A Europa entra em guerra, desta vez uma guerra de proporções jamais imaginadas antes, devido aos avanços tecnológicos e ao encurtamento das distâncias pelos novos meios de transporte e de comunicação. Das consequências dessa guerra, ninguém é poupado: Grigori Peshkov, Billy Williams, Walter Von Ulrich e o conde Fitzherbert, todos se veem às voltas com o perigo e o terror dos campos de batalha, sem ao menos a chance de escolherem ao lado de quem preferem estar: Billy serve sob as ordens de Fitz, a quem detesta por ter seduzido e engravidado sua irmã, levando ao rompimento dela com a família, enquanto Walter se vê diante da possibilidade muito concreta de precisar atirar no conde, seu amigo desde a adolescência e, ainda por cima, cunhado.

Enquanto o exército russo invade a região alemã da Prússia, do outro lado do continente os alemães enfrentam britânicos e franceses. A Primeira Guerra Mundial forçou uma transição brusca entre as formas de guerrear antigas e modernas: nas primeiras batalhas ainda se tentou utilizar a cavalaria, que desde a Antiguidade era considerada uma arma decisiva na maioria das guerras, mas que logo se mostrou impotente diante de tanques e metralhadoras. Pela primeira vez foram usados aviões e bombas de alta potência, elevando a guerra a um novo patamar de horror. As metralhadoras fixas (ainda não existiam as leves, que poderiam ser usadas por soldados de infantaria) eram um poderoso instrumento para a defesa de posições, praticamente à prova das formas tradicionais de ataque, o que teve como consequência uma taxa terrível de baixas: a infantaria precisava atravessar correndo as várias centenas de metros da "terra de ninguém" que separava as trincheiras de cada lado - e tinha que fazer isso indo ao encontro das rajadas das metralhadoras inimigas.

Os Estados Unidos entraram tardiamente na guerra, em 1917, oficialmente em resposta ao torpedeamento de navios americanos por submarinos alemães no Atlântico norte com o objetivo de cortar o fornecimento de suprimentos a ingleses e franceses, mas fica claro com uma análise mais cuidadosa que isso foi apenas parte do motivo: os americanos sabiam bem o que perderiam no campo econômico se alemães e austríacos vencessem a guerra e ficassem senhores da Europa. Para a Inglaterra e a França, a adesão dos ianques foi, literalmente, a salva
ção, principalmente depois que a Rússia se retirou da guerra por causa da Revolução Comunista ocorrida em outubro desse mesmo ano. Para relatar o que acontece na Casa Branca, Follett usa o jovem Gus Dewar, então um dos assessores diretos do presidente Woodrow Wilson.

Queda de Gigantes é um daqueles livros cuja leitura torna-se rapidamente compulsiva - você começa a ler e, quando se dá conta, percorreu 50 páginas sem sentir, e ainda fica contrariado por ter outros afazeres que o obriguem a deixar a leitura de lado por algum tempo. Por tratarem basicamente de guerra, estas páginas mostram um pouco (na verdade, muito) do melhor e do pior que existe nos seres humanos, pois talvez nenhuma outra situação seja tão propícia à revelação desses extremos. É fascinante ler um autor com a capacidade de nos fazer entender como a História é construída, pedra por pedra, pelas ações de seres humanos iguais a nós, tanto os milhares de anônimos que lutaram na guerra e os milhões que sofreram seus efeitos, quanto os grandes líderes que precisaram arcar com o peso de decisões que definiriam o futuro de países inteiros - e, infelizmente, nem sempre se mostraram à altura de tal responsabilidade. E a guerra não é mostrada de uma maneira simplista, como se tivesse sido um confronto do "bem" contra o "mal": o leitor conhece personagens de ambos os lados, estima-os igualmente e torce para que sobrevivam e voltem para suas famílias, o que dá à coisa toda, antes de mais nada, um sentido profundamente humano.

Sábado, Dezembro 31, 2011

Politicamente... corretos??

Hesitei um pouco antes de decidir o lugar mais adequado para postar este texto. Por um lado, trata-se de uma reflexão de natureza pessoal, de modo que não estaria deslocada no meu outro blog, o Inner Wilderness; por outro, refere-se a literatura, de modo que também podia vir para cá, pois comentários e resenhas de livros específicos não são a única maneira de se "falar de literatura". Esse último fator acabou pesando mais - então, aqui estamos.

A revista Aventuras na História de dezembro traz uma matéria sobre a série de livros em quadrinhos (hoje dir-se-ia "graphic novels") intitulada Tintim, criada pelo jornalista e cartunista belga Hergé entre o fim da década de 20 e sua morte em 1986. Os aficionados por quadrinhos saberão na hora do que estou falando: embora menos popular, Tintim é tão clássico quanto Asterix. Para ser mais exato, a matéria é sobre as posições "discutíveis" tomadas pelo autor em praticamente todas as suas histórias, e especula um pouco sobre como Steven Spielberg terá contornado esse fato no filme que fez sobre o personagem, com estreia prevista para janeiro no Brasil.

As tais posições discutíveis consistem basicamente numa visão "eurocêntrica" do mundo. Tintim é um repórter do jornal belga (que existe mesmo: Hergé trabalhava nele quando criou o personagem) Le Vingtième Siècle, que viaja pelo mundo no exercício de sua função - mas, como teria que acontecer numa série de aventuras dirigidas ao público jovem, suas expedições jornalísticas nunca são tranquilas: ele sempre se mete em situações perigosas. Mais que isso: suas atitudes (muitas vezes de uma maneira não proposital, o que é mais revelador) deixam transparecer a ideia, apresentada como óbvia a ponto de não merecer reflexão, de que tudo o que vale a pena ou é digno de atenção, ou está na Europa ou deriva direta ou indiretamente de lá. Partindo desse ponto de vista, o colonialismo, que na época estava sendo contestado tanto nas próprias colônias quanto nas metrópoles, era plenamente justificável e até mesmo natural. Cito:

Quando Tintim foi ao Congo, em 1931, o país africano ainda era uma colônia belga (a independência veio só em 1960) e os quadrinhos reproduziam a visão eurocentrista da época. Na primeira versão do álbum, os congoleses falavam um francês primitivo e eram extremamente submissos. Em um dos trechos, Tintim substitui um professor em uma escola missionária e começa a aula apontando para um mapa da Europa: "Meus queridos amigos, hoje eu vou falar sobre o seu país: a Bélgica". Nas versões posteriores, o mapa foi substituído por um quadro-negro, e a lição sobre a Bélgica, por uma de matemática.


Gostaria de deixar algo claro antes de prosseguir: não é meu objetivo aqui defender o colonialismo (o que seria no mínimo burrice vindo de um brasileiro, cujo país começou sua história como colônia e até hoje tenta se livrar dos traumas inerentes a essa condição) ou qualquer das outras atitudes "discutíveis" que aparecerão mais adiante neste texto. O que questiono é o que nos dá o direito de "corrigir" obras que retratam uma época - e muitas vezes a retratam de maneira valiosa - para que se enquadrem nas regras daquilo que hoje é tido como "aceitável". Tintim tem atitudes eurocêntricas porque seu criador, como a maior parte dos europeus daqueles dias, tinha essas mesmas atitudes. Suas aventuras retratam um ponto de vista que prevaleceu durante muito tempo e que, gostemos ou não disso, ajudou a moldar uma época. Pergunto: faz sentido, ao invés de aprender com esses fatos e permitir que eles nos ajudem a aquilatar tudo o que mudou desde então, simplesmente querer reescrever as histórias para adequá-las àquilo que é considerado de bom tom hoje em dia?

Atravessando o oceano, encontramos mais exemplos: as obras de Mark Twain (1835-1910) estão sendo reescritas nos Estados Unidos para atender às demandas da tirania politicamente correta. No texto de Twain, é largamente utilizada a palavra nigger - uma designação pejorativa para pessoas negras -, agora substituída por slave ('escravo'). Note-se que a situação dos negros não é um ponto de pouca importância nessas obras, já que o escravo Jim, fiel amigo dos imortais anti-heróis Tom Sawyer e Huckleberry Finn, é um dos personagens mais atuantes nas histórias. Eu já tinha lido, creio que numa dissertação sobre a vida e a obra de Samuel Langhorne Clemens (Mark Twain era pseudônimo) que, já em meados do século passado, portanto bem antes da babaquice politicamente correta ser inventada (ou seria ela bem mais antiga do que imaginamos?), as Aventuras de Huck (1885), geralmente consideradas sua obra mais importante, haviam sido alvo de protestos por parte de pessoas que consideravam o livro racista. Pessoalmente, acho que o racismo estava muito mais na cabeça de tais pessoas do que nas páginas dessa obra essencial da literatura norte-americana. De outra forma, como teria sido possível alguém não perceber que o que Twain estava fazendo era sair em defesa dos negros, que eram particularmente marginalizados no sul dos Estados Unidos, região onde ele nasceu e viveu? A escravidão foi abolida no país com a vitória dos estados do norte na Guerra Civil, em 1865, quando Mark Twain tinha 30 anos de idade; já as aventuras de Tom Sawyer e Huck Finn são ambientadas nos anos da adolescência do autor, quando a escravidão era vista como um fato cotidiano, e seria ingenuidade esperar que uma emenda constitucional tivesse o poder de mudar instantaneamente a atitude que a maioria dos americanos brancos tinha em relação aos negros. Há um trecho onde Huck inventa, para uma senhora com quem se encontra, que esteve viajando num barco a vapor e que chegou atrasado porque a cabeça de um cilindro da embarcação saltou devido à pressão, exigindo uma parada para conserto. A tal senhora então pergunta se alguém se feriu e, ao ouvir em resposta que um negro morreu, manifesta alívio, "porque em acidentes desse tipo, às vezes, pessoas se machucam". O autor estava sendo racista? Claro que não: se no livro os negros são vistos por muitos como seres subumanos, é porque era isso mesmo o que acontecia na época que a história retrata - e também na época em que ela foi publicada, mesmo que entre uma coisa e outra a escravidão tivesse sido abolida. Esquecer esses fatos, ou escondê-los das novas gerações, fará bem a alguém? Acredito que muito pelo contrário: como escreveu Sêneca (se não me engano), quem esquece o passado condena-se a repeti-lo, e isso não vale só para indivíduos: aplica-se também às sociedades. Observe-se ainda, de passagem, que defender a igualdade das pessoas independentemente de raça, nos tempos de Mark Twain, exigia muito mais coragem do que hoje, porque essa ideia não era unanimidade: muitas pessoas que se consideravam "de bem" davam como certo que os negros, e qualquer outra raça não-caucasiana, eram inferiores, e fim de papo. Isso era ensinado em escolas e universidades; havia cientistas que acreditavam tê-lo provado. E depois de terem purgado as obras de Twain de todas as partes supostamente racistas, qual será o próximo alvo da patrulha politicamente correta? Suponho que os próprios Tom e Huck, cuja maior qualidade enquanto criações literárias é (era?) precisamente o fato de representarem garotos reais, de carne e osso, do sul dos Estados Unidos em meados do século XIX: garotos criados soltos nos brejais do Mississípi, que fumavam cachimbo, pregavam mentiras sempre que achavam necessário e preferiam com toda a certeza perambular pelo mato e remar de ilha em ilha pelo rio ao invés de ir à escola. Agora, se depender dessa turma, provavelmente as próximas edições de Tom Sawyer e das Aventuras de Huck terão protagonistas vegetarianos, que fazem ginástica ao acordar e trabalho voluntário para causas sociais...

Não estou dizendo que os preconceitos de época presentes em obras literárias devam ser considerados normais ou assim apresentados aos novos leitores. O que acontece é que o melhor caminho, aquele que mais contribuiria para a edificação cultural e para a própria formação das novas gerações, mais uma vez, não é o caminho mais fácil. Temos um exemplo mais perto de nós: Monteiro Lobato (1882-1948), que pode não ter revolucionado a literatura brasileira como Mark Twain fez com a norte-americana, mas sem dúvida marcou a infância de muitos brasileiros e foi responsável por despertar em pelo menos alguns o gosto pela leitura. Há, sim, detalhes racistas nas histórias do Sítio do Picapau Amarelo, mas seria ignorância culpar o autor por isso: ele era simplesmente um homem de sua época. Nos anos 30 e 40, muitas pessoas que haviam sido escravas, ou donas de escravos, ainda estavam vivas; era, portanto, normal que tia Nastácia chamasse sua patroa, Dona Benta, de "sinhá" - mas como uma criança de hoje iria interpretar isso? Depende apenas dos instrumentos de interpretação que a família e a escola lhe houverem fornecido. Mais complicado: sempre que a boneca Emília queria fazer uma malcriação com tia Nastácia (o que acontecia em média duas vezes por livro), chamava-a de "negra beiçuda" ou de outros insultos de teor racista. Em pelo menos uma ocasião, Dona Benta vem em defesa da cozinheira dizendo que "todos sabem que Nastácia só é preta por fora" (!), declaração que consegue ser mais racista que os xingamentos dos quais tentava defendê-la.

Entretanto, eu defendo que a solução para isso não é nem banir as obras de Lobato (que são literatura infantil de qualidade, que já se provou capaz de resistir ao tempo) nem "reescrevê-las" para que não choquem os mais sensíveis nem disseminem ideias preconceituosas entre os jovens. Esse tipo de "reescrita" (e o que digo agora vale para as obras de Hergé, Twain, Lobato e dezenas de outros) teria o efeito de criar nesses jovens a noção de que o mundo foi sempre como é agora, tirando-lhes qualquer chance de vir a compreender na prática o que significam variações de cultura e perspectiva histórica - coisas sem as quais, a meu ver, não é possível alcançar a verdadeira maturidade intelectual. Devíamos, isso sim, investir em esforços para que a educação oferecida a cada nova geração a tornasse capaz de fazer seus próprios julgamentos, de modo que, quando fosse o caso, pudesse apreciar uma obra literária pelo que tem de belo e interessante, sem necessariamente aceitar como verdade todas as ideias que ela apresente. Não é fácil? Nem um pouco. Mas quem aí já obteve algo de bom na vida fazendo as coisas do jeito mais fácil?

Infelizmente, a brigada politicamente correta que domina certos setores da cultura contemporânea, seja por mera ignorância ou por uma determinação consciente de fazer ouvidos surdos a qualquer coisa que desqualifique seus argumentos (e, não raro, as duas coisas), não demonstra qualquer senso de perspectiva: já vi censurarem Cristóvão Colombo por não ter tido preocupações ecológicas no início da colonização das Américas, e absurdos ainda maiores. É até natural que cada geração tenha a tendência de pensar que suas próprias crenças e visões de mundo são as "certas" - mas aqueles que, em qualquer geração, vêm a alcançar algum grau de sabedoria, não demoram a compreender o quanto tais coisas são frágeis. Embora não seja uma coisa fácil de aceitar, Salman Rushdie estava certo ao dizer que verdade é o que a maioria vê como verdade - mas a maioria também pode mudar de opinião ao longo da História. É muito possível que ideias que hoje aceitamos como normais sejam consideradas absurdas e preconceituosas daqui a alguns séculos. Não há saída: toda pessoa que tenha a pretensão de estender sua compreensão um pouco além de sua vidinha cotidiana tem que aceitar o fato de que tudo é transitório, tudo é nebuloso, e de que não temos certeza de coisa alguma.

Quarta-feira, Novembro 23, 2011

Rei Morto, Rei Posto

A escritora britânica Mary Renault (1905-1983) foi durante décadas a grande dama da ficção histórica de língua inglesa. Para dar uma ideia de sua importância, hoje ela é citada como influência por sujeitos como Steven Pressfield, Conn Iggulden, Simon Scarrow e outros desse calibre. Sobre ela, a crítica chegou a dizer que era capaz de escrever sobre a Grécia antiga como se nela tivesse vivido. Deve ser verdade, pois suas narrativas têm o poder de nos dar a sensação de que nós, leitores, é que estamos vivendo lá.

Dos quatro livros da autora que li até hoje, Rei Morto, Rei Posto (no original, The King Must Die, literalmente 'O Rei Deve Morrer') é sem dúvida o meu favorito; lido na adolescência, foi relido agora por nenhum motivo em especial, a não ser a vontade de curtir novamente a história envolvente e o estilo narrativo agradavelmente trabalhado que caracteriza a autora. Suas frases são por vezes tortuosas, dizendo as coisas de maneiras não óbvias, mas sem cair num pedantismo cansativo. O texto é pontilhado por longas metáforas que lembram irresistivelmente o estilo de Homero, de quem Renault era sem dúvida uma profunda conhecedora. Este livro em particular, ambientado nos primórdios da civilização helênica, antes mesmo da Guerra de Troia, é uma versão romanceada da lenda do herói Teseu, que procura dar aos elementos míticos tradicionais uma interpretação histórica crível.

Teseu é um dos heróis mais importantes da mitologia grega clássica. Embora seus feitos não rivalizem em número nem em grandeza com os de Hércules - de quem, segundo algumas fontes, teria sido contemporâneo -, pode-se dizer que deixou um legado bem mais importante. Sim, pode-se falar em legado, pois tudo aponta para a probabilidade de ter havido um Teseu de carne e osso, que só não se pode dizer "histórico" porque viveu antes que a escrita fosse introduzida na Grécia. Seu papel, afora muitas façanhas guerreiras, foi o de libertar os gregos do domínio cretense e unificar as diversas pequenas cidades da região da Ática num Estado forte, tendo Atenas como capital.

Obs.: Em Rei Morto, Rei Posto há algumas menções à escrita, inclusive uma parte onde Teseu escreve do próprio punho uma carta a seu pai. Não sei dizer se isso teria sido uma falha da autora - coisa pouco provável em se tratando de alguém que tão evidentemente possuía vasto conhecimento sobre a Antiguidade - ou se apenas estaria de acordo com as informações que a arqueologia podia oferecer na época em que o livro foi escrito (década de 50). Em todo caso, isso pode ser relevado, e de modo algum tira o mérito da história.

A narrativa de Renault é em primeira pessoa e segue a lenda de perto. Teseu, rei de Atenas e já de idade avançada, rememora sua vida, desde sua infância na cidade de Trezena, onde nasceu, neto do rei local, Piteu. A princesa Etra, mãe de Teseu, foi a única filha legítima que restou ao rei, que perdeu os outros, bem como a esposa, vitimados por uma epidemia - e filhos bastardos, embora ele os tenha em quantidade, não contam para fins de sucessão, de modo que o pequeno Teseu é o presumível herdeiro do trono. Além de princesa, Etra é uma alta sacerdotisa; nunca se casou e há quem acredite que o pai de seu filho não é outro senão Poseidon, deus do mar. Teseu, é claro, gosta dessa ideia, mas, à medida em que cresce, vai achando-a cada vez mais improvável. Embora a questão de sua paternidade vá ter implicações bem mais sérias que essa em sua vida futura, por muito tempo a coisa que mais o preocupa é o fato de ser menor que a maioria dos rapazes de sua idade, enquanto era crença geral que os filhos de deuses distinguiam-se por serem muito mais altos que os outros homens - e, na Grécia da época, todo jovem desejava ser alto, o que representava uma vantagem na maioria das modalidades atléticas, além de deixá-los mais impressionantes no campo de batalha, portando elmo, escudo e lança.

O mistério de sua origem é esclarecido quando Teseu faz 17 anos: sua mãe conta-lhe que seu pai (que ela ainda se recusa a dizer quem é) ocultou algo sob uma grande pedra, que ele, Teseu, ao atingir a idade adulta, deveria ser capaz de erguer sozinho. Se o jovem se mostrasse à altura do desafio e recuperasse o que estava escondido, ela deveria mandá-lo ao pai; caso contrário, ele poderia terminar seus dias em Trezena. E Teseu não decepciona: cumpre a tarefa não com força bruta, mas com inteligência, usando o princípio da alavanca, e encontra sob a rocha a espada e as sandálias que pertenceram a seu pai. Finalmente é chegada a hora das respostas: a mãe e o avô revelam-lhe que ele é filho de Egeu, rei de Atenas, a quem a então adolescente Etra entregou a virgindade num ato cerimonial, obedecendo à determinação de um oráculo. Na ocasião, Egeu insistiu em que, se dessa breve união resultasse um filho homem, este deveria ser mantido na ignorância de sua origem até que tivesse crescido e demonstrado sua capacidade, pois, caso se tornasse público que era seu filho, o menino correria o risco, mesmo ali em Trezena, de tornar-se um alvo para os ambiciosos parentes da casa real ateniense.

Teseu parte para Atenas pela perigosa Estrada do Istmo, e pelo caminho elimina uma série de bandidos - essa, conforme a lenda, foi a primeira façanha a dar algum destaque a seu nome, mas Renault não entra em detalhes nem se alonga a respeito (leiam aqui sobre um certo Procusto, cuja história vale a pena conhecer). Quando Teseu chega à cidade de Elêusis, aí sim, a autora por fim o tem onde o queria desde o início. Essa cidade segue a religião antiga, a do "povo da costa", que ocupava a Grécia antes da chegada dos helenos, e por quem estes últimos parecem sentir um incômodo misto de desprezo e fascínio (posso estar enganado - se alguém puder retificar ou ratificar minha teoria, agradeço -, mas pela descrição física desse povo, mais o fato de eles chamarem a si mesmos de "mínios", suponho que fossem um ramo da civilização minoica, e, portanto, aparentados com os cretenses, embora muito menos poderosos que eles na época. Na verdade, "minoico" é um nome cunhado pelos arqueólogos, pois nao se sabe como esse povo chamava a si mesmo, mas Renault naturalmente precisava designá-los de algum modo).

A "religião antiga" mencionada é essencialmente matriarcal. A principal sacerdotisa é também a rainha, e é quem de fato governa: o rei não passa de seu marido, pouco mais que uma figura decorativa, além de um acessório indispensável se ela pretende ter filhos. É muitíssimo bem tratado e altamente honrado por todos - só que seu reinado é extremamente curto. Depois de um ano, deve ser sacrificado e substituído por outro, que se casa com a mesma rainha, e assim sucessivamente. O sacrifício anual do rei é considerado essencial para que a terra produza e as mulheres concebam. É a morte gerando a vida, e vice-versa: a serpente Ouroboros, com a cauda na boca. O círculo infinito.

Quanto à escolha do novo rei, ela é deixada nas mãos dos deuses: será o primeiro forasteiro que entrar na cidade no dia determinado. No caso, Teseu. Suponho que para proporcionar um espetáculo melhor, ou apenas por questão de tradição local, a fórmula do sacrifício é um tanto diferente da comum. Em vez de ser colocado numa ara e ter o pescoço cortado por um sacerdote, o "antigo" rei enfrenta seu sucessor presumido numa luta até a morte. Não fica claro o que aconteceria se o primeiro vencesse; na verdade, na narração da cena, a sensação que se tem é a de que o rei se deixa vencer, como num sacrifício mesmo. Assim que ele morre, é como se jamais tivesse existido, e Teseu torna-se o novo queridinho da rainha e do povo de Elêusis - mas, mesmo com 17 anos de idade, ele mantém a perspectiva das coisas, e não esquece em momento algum que a areia na ampulheta já está correndo também para ele.

Terei falado demais?? Então, melhor dizer que quem quiser saber de que maneira Teseu irá escapar da ratoeira real onde se enfiou terá que ler o livro. Daqui até o fim do post, abordarei alguns dos motivos da importância da figura de Teseu para a nação grega e o modo como esses pontos são abordados por Mary Renault.

Cnossos em sua glória

A Grécia foi durante séculos a civilização mais pujante do Mediterrâneo e de todo o ocidente, embora, por causa de suas divisões, nunca tenha possuído uma estatura política que igualasse suas realizações culturais - a menos que consideremos a época de Alexandre, mas, mesmo então, o que houve foi uma unificação forçada e artificial, que durou pouquíssimo tempo. De todo modo, antes dos gregos, um outro povo detinha a supremacia na região: os cretenses.

Embora os gregos fossem conhecidos como marinheiros notáveis, os cretenses estavam ainda vários passos à frente deles nessa arte - e, numa época em que os poucos países civilizados que existiam dependiam quase completamente do tráfego marítimo para poderem interagir, dominar as rotas de navegação significava ter poder. Graças a sua invejável frota, Creta por muito tempo manteve as cidades gregas situadas na costa ou em ilhas (ou seja, quase todo o território do país!) sob um controle estreito. Por um lado, os cretenses mantinham o mar livre de piratas; por outro, cobravam pesados tributos e impunham restrições ao desenvolvimento de uma navegação independente pelos gregos. O rei de Creta, que governava de sua capital, Cnossos - sem dúvida uma das maiores e mais ricas cidades do mundo na época - era sempre chamado de Minos, o que não era um nome, e sim um título.

Até aqui, é fato histórico. Daqui para a frente, é mito - e, se eu puder deixar aqui uma nota de protesto contra a conotação negativa que muita gente atribui a esta palavra, quero fazer isso citando um dos maiores estudiosos de mitos de todos os tempos, Joseph Campbell. As frases não devem ser exatamente assim, porque estou citando de memória, mas, em essência, dizem: "O mito é a verdade do homem, pois o homem se exprime no mito: portanto, o mito não é mentiroso. Não podemos ignorar o mito se quisermos compreender o homem" (o grifo é meu). Isto posto, vamos em frente.

Conta-se que o rei Minos (um deles), após ter vencido disputas dinásticas para chegar ao trono, pediu a Poseidon um sinal: se seu reinado contasse com a aprovação dos deuses, que lhe aparecesse um touro branco, o qual ele prometia oferecer em sacrifício em seguida. Dito e feito: um grande e magnífico touro, branco como a neve, apareceu nos arredores do palácio, trazendo a confirmação que o rei desejava. Minos, porém, acabou desonrando sua promessa e, em vez de sacrificar aos deuses o valioso animal, manteve-o para si. Como castigo, a deusa Afrodite, a pedido de Poseidon, incitou na rainha Pasífae uma paixão insana pelo touro - paixão que ela, de alguma maneira, consumou. Dessa união não natural nasceu um monstro com corpo humano e cabeça de touro, que, embora tivesse recebido da mãe o nome de Astérion, ficou conhecido simplesmente como Minotauro, o "touro de Minos". Minos, aliás, sem dúvida pensou em mandar matar a criatura logo que nasceu, mas deve ter concluído que fazer isso atrairia ainda mais ira divina contra ele: os deuses haveriam de querer que Astérion permanecesse como um vergonhoso lembrete de seu crime.

Logo que o Minotauro cresceu um pouco, tornou-se evidente sua natureza feroz, e, apesar de suas afinidades bovinas, estava longe de ser um herbívoro pacífico: seu alimento favorito era a carne humana. Minos, então, incumbiu o famoso arquiteto Dédalo de construir um labirinto por onde Astérion pudesse perambular à vontade sem nunca achar a saída, o que foi feito. Em seguida, pensando ao mesmo tempo numa maneira de manter seu monstruoso enteado sem ter que sacrificar seu próprio povo, e em vingar a morte do filho Androgeu, que fora assassinado em Atenas, o rei determinou que, em acréscimo ao tributo anual que já lhe pagava em metais preciosos, cereais, vinho e azeite, aquela cidade, de agora em diante, deveria enviar a cada ano sete moças e sete rapazes, que seriam conduzidos ao labirinto para servir de alimento ao Minotauro.

Essa situação já durava anos quando Teseu, tendo chegado a Atenas e sido reconhecido como filho pelo rei Egeu, decidiu que era hora de dar um basta. Ofereceu-se voluntariamente para ser uma das vítimas daquele ano, e, antes de embarcar no navio cretense, prometeu ao pai que, se voltasse vitorioso, trocaria as velas negras que a embarcação ora levava por outras brancas.

Em Creta, a princesa Ariadne, filha de Minos e meia-irmã do Minotauro, apaixonou-se à primeira vista pelo jovem grego. Em segredo, antes que Teseu fosse para o labirinto, entregou-lhe uma espada e um novelo de lã, que, amarrado firmemente junto à porta e desenrolado à medida em que fosse avançando, lhe permitiria, depois, encontrar a saída. Teseu matou o Minotauro e embarcou de volta com seus companheiros, mas esqueceu-se de mudar as velas do navio como havia prometido. Ao avistar as velas negras aproximando-se do porto, o rei Egeu, desesperado pensando que seu filho tivesse morrido, lançou-se ao mar e morreu. Daí em diante, o mar que banha o leste da Grécia recebeu seu nome, que tem até hoje.

Teseu teve muitas outras aventuras, desde raptar Helena de Esparta (mais tarde celebrizada como Helena de Troia) quando ela ainda era quase uma criança e ele já um homem de meia-idade, até raptar (também) Antíope, a rainha das ferozes amazonas da Ásia Menor, o que causou o lendário ataque delas contra Atenas. De Antíope, Teseu teve seu único filho legítimo, Hipólito, que protagonizaria uma autêntica tragédia, bem ao gosto dos gregos. Mas isso tudo daria (e talvez dê mesmo) assunto para mais uns três textos.

Por ora, para finalizar este post, eu gostaria de chamar atenção para a realidade histórica por trás do mito do Minotauro e do labirinto. Além de seu poderio naval, a ilha de Creta era famosa por seu gado - vacas e touros formidáveis, bem maiores e mais possantes que a raça criada pelos gregos. A figura lendária do Minotauro, que fundia homem e touro, surgiu lá, e para os cretenses tinha provavelmente um significado muito diferente do que a lenda grega mais tarde lhe daria: não um sinal de infâmia nem um monstro cruel, mas sim um símbolo de força e poder. Com essa conotação, foi adotado como uma espécie de emblema oficial pelo Estado cretense, como a águia seria mais tarde para Roma: a figura do Minotauro ornava as velas dos navios de Creta e as fachadas de seus palácios, e passou a ser associada, tanto pelos próprios cretenses quanto pelos gregos, à nação cretense em si mesma. Portanto, "matar o Minotauro" significa provavelmente que Teseu liderou os gregos numa rebelião, que derrubou o poder de Creta e transformou a ilha em possessão helênica. De fato, quem for ler a Ilíada de Homero encontrará, na narrativa sobre a Guerra de Troia, um personagem chamado Idomeneu, que é apresentado como rei de Creta e é em tudo e por tudo um heleno. Portanto, tudo sugere que, poucas décadas depois do tempo de Teseu, Creta havia sido colonizada pelos gregos e era agora um reino helênico. O labirinto, por sua vez, pode ser uma referência ao palácio real de Cnossos, que tinha tantas salas e corredores que seria fácil perder-se dentro dele.


Quanto ao sacrifício anual de sete moças e sete rapazes, Mary Renault adota a versão de que eles iriam na verdade participar de algo que era ao mesmo tempo parte de um ritual religioso e espetáculo popular: a Dança do Touro, na qual uma equipe de atletas - homens e mulheres jovens, de preferência pequenos, leves e ágeis - realizava uma exibição que era um misto de tourada com ginástica artística. Um touro furioso era solto na arena com os dançarinos, que, além de sobreviver, deviam dar um bom espetáculo, por meio de saltos, esquivas ágeis e assim por diante. A façanha suprema, que assegurava ao dançarino o respeito dos companheiros e a adoração da plateia, consistia em equilibrar-se plantando bananeira sobre o dorso ou os chifres do bicho. Nem é preciso dizer que o índice de mortalidade entre os Dançarinos do Touro devia ser altíssimo, de modo que, quando cada novo grupo chegava, deviam restar muito poucos do ano anterior ainda vivos.

Há muitos outros detalhes interessantes que quem ler Rei Morto, Rei Posto e tiver algum conhecimento sobre história e mitologia gregas perceberá, e eu bem gostaria de mencionar tudo o que encontrei, mas, mesmo que quem lê este blog já haja demonstrado que não tem medo de textos longos (risos), acho que ainda assim é bom manter um pouco de moderação, então vou colocando o ponto final por agora. Creio que os livros de Mary Renault devem estar fora de catálogo no Brasil, mas não tive dificuldade em achá-los em bons sebos. E qualquer um desses livros que caia nas mãos de vocês pode ser plenamente recomendado.

Em tempo: quando li o livro pela primeira vez, foi numa edição diferente, não lembro de que editora era, e a capa fugiu-me quase completamente da memória. O exemplar que tenho hoje foi comprado num sebo faz algum tempo e foi lançado pelo Círculo do Livro, com a capa que aparece no início deste post - capa, por sinal, péssima. Já vi chifres maiores e caras mais assustadoras num tambo de leite que visitei certa vez do que no Minotauro nela representado, e, quanto ao herói que aparece, lembra muito mais a descrição tradicional de Hércules que a de Teseu.

Terça-feira, Outubro 18, 2011

Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Tudo bem, Harry Potter é literatura mainstream - mas por que isso é necessariamente um demérito? Certo, seria hipócrita negar que, para o viciado em literatura, existe um tipo de satisfação egoísta em conhecer livros magníficos dos quais pouca gente ouviu falar, mas a radicalização desse prazer leva o tal viciado, por vezes, a torcer automaticamente o nariz para obras que estão na boca do povo, que fazem furor, vendem exemplares às toneladas e viram fenômenos de mídia. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, eu diria: achar que algo deve ser bom só porque todo mundo está comentando é um comportamento burro - mas não é menos burro achar que algo é ruim pelo mesmo motivo.

E Harry Potter, fenômeno de mídia ou não, é uma das mais interessantes séries de fantasia surgidas entre o final do século passado e o início deste. Quem não conhece realmente a saga, apenas ouviu falar, viu imagens aqui e ali e talvez tenha assistido - sem prestar atenção - a um segmento de um dos filmes quando passou na TV, acha que trata-se de "literatura infantil", e dá o assunto por encerrado. Grande erro. Muitas crianças podem achar legal usar uns óculos sem lente, pintar uma cicatriz na testa com caneta hidrocor e gritar "Vingardium Leviosa!" agitando um espanador de pó, mas eu não conheço ninguém com menos de 16, 17 anos (e bem pouca gente acima dessa idade) que tenha encarado do início ao fim as mais de 3000 páginas que compõem os sete volumes da série escrita pela inglesa Joanne Kathleen Rowling. Sem contar que esses livros podem facilmente prender a atenção de qualquer leitor que disponha da necessária dose de imaginação, independentemente da idade. Pois trata-se de uma história de magia e heroísmo calcada em valores atemporais, que nunca deixarão de tocar e comover qualquer ser humano saudável: amor, amizade, lealdade e coragem.

A autora parece ter planejado que uma geração de leitores fosse crescendo junto com o herói: de enredos simples e textos relativamente breves no início, a série foi aumentando em número de páginas e em grau de complexidade a cada novo volume: o quinto, Harry Potter e a Ordem da Fênix, tem mais de 700 páginas, mas, daí em diante, houve uma ligeira redução. Ao mesmo tempo, a própria Rowling também experimentou uma evolução: os últimos volumes são barbaramente melhor escritos que os primeiros. Como há muita informação sobre a série espalhada pela internet, acho desnecessário resumir o enredo geral: quem já conhece HP não precisará disso, e quem ainda não o conhece, não é por meio deste humilde post que ficará conhecendo. Tudo o que farei será comentar o livro que acabo de ler, o sexto volume, Harry Potter e o Enigma do Príncipe, introduzindo apenas as informações necessárias à compreensão do que irei dizer... O que, receio, dará praticamente no mesmo!

Para começar, o título é discutível: por que Harry Potter and the Half-blood Prince virou Harry Potter e o Enigma do Príncipe em vez de Harry Potter e o Príncipe Mestiço, como seria o correto? Como já disse antes neste blog, não devemos ser apressados ao culpar o tradutor em casos assim (embora eu realmente discorde em muitos pontos da tradução de Lia Wyler): muitas vezes a decisão final sobre o título parte do setor de publicidade da editora, quando alguém lá é de opinião que a tradução literal do título original não soaria bem ou não seria suficientemente chamativa. Desconfio que, no presente caso, a proeza tenha sido de alguém que não sabia muito sobre a série e achou que a palavra "mestiço" não seria bem compreendida pelas "crianças". Se é que não foi resultado da neurose politicamente correta, uma tentativa de evitar qualquer alusão que pudesse, mesmo remotamente, ser considerada "racista".

Uma pena, pois racismo, ainda que sob uma roupagem de fantasia, é um dos temas mais discutidos na série. No mundo da magia onde transitam Harry, seus amigos e inimigos, não parece haver discriminação pela cor da pele ou dos olhos, mas existem bruxos que se consideram superiores aos outros por terem o que chamam de "sangue puro" - o que consiste em ter exclusivamente ancestrais bruxos em suas árvores genealógicas. Naturalmente, há diversidade de opiniões: existem bruxos de sangue puro que não ligam para isso e consideram mestiços e trouxas (os não-bruxos) como seus iguais - e há também bruxos mestiços que tentam fazer parecer que são puros-sangues para tentar ganhar status em certos meios. O potencial de intolerância gerado nesse cenário já levou, como seria previsível, a muitos conflitos através dos séculos, e no último deles o mundo mágico assistiu à ascensão do mais temido bruxo das trevas de todos os tempos, que se autointitulava Lorde Voldemort - e tal era o pavor que inspirava, que a maioria dos bruxos tem medo até de pronunciar seu nome, preferindo referir-se a ele como "Você-Sabe-Quem" ou "Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado". Esse bruxo matou os pais de Harry quando ele ainda era um bebê - mas, por razões que ninguém compreende muito bem, não conseguiu matar o próprio Harry, e teve seus poderes e corpo destruídos quando o terrível feitiço que lançara contra o menino ricocheteou e o atingiu. Harry foi criado pelos tios trouxas, sofrendo negligência e todo tipo de implicância, até os onze anos de idade, quando teve a revelação de quem era e foi levado para a prestigiosa Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde iniciou a educação necessária para viver no mundo a que realmente pertencia. E, muito para sua surpresa, descobriu que era famoso: no mundo dos bruxos, a maioria das pessoas o considera um herói por ter (aparentemente) destruído Voldemort. Uma crença que, infelizmente, demonstrou-se errada: Voldemort estava enfraquecido e privado de um corpo, mas continuava vivo. Só agora, cinco anos e muitas aventuras depois, Harry está prestes a descobrir como isso foi possível.

Aos 16 anos, começando a cursar o sexto ano em Hogwarts, Harry está na altura da vida em que a maioria dos jovens bruxos está pensando a respeito do que fazer ao terminar a escola. Ele, porém, tem muito mais do que isso a preocupá-lo: Voldemort recuperou o corpo e a plenitude de seu poder, conseguiu reunir muitos de seus antigos seguidores, bem como recrutar novos, e o mundo mágico está em guerra. É óbvio para todos que o Lorde das Trevas fará de Harry um de seus alvos principais, e só o fato de estar em Hogwarts, cujo diretor é Alvo Dumbledore - tido por muitos como o maior bruxo dos tempos modernos e como a única pessoa que Voldemort teme no mundo - permite que o rapaz possa continuar levando uma vida quase normal.

A narrativa deste episódio começa durante as férias de verão: como costuma acontecer nessa época do ano, Harry está atolado na casa dos tios, contando os dias para a volta a Hogwarts, quando, para sua surpresa, o próprio Dumbledore vai pessoalmente buscá-lo, a fim de escoltá-lo até a Toca - a casa dos Weasley, família de seu melhor amigo, Rony - para passar lá o restante das férias. Pelo caminho, os dois visitam um antigo professor, Horácio Slughorn, e o convencem a interromper sua aposentadoria e voltar a ensinar em Hogwarts. Tudo indica que Slughorn irá assumir a disciplina de Defesa Contra as Artes das Trevas, um cargo que parece estar sob algum tipo de mau-olhado, pois, desde o início da vida escolar de Harry, ninguém conseguiu permanecer nele por mais de um ano - mas ao iniciar-se o período letivo, Harry e seus colegas têm uma surpresa: Slughorn assume a disciplina de Poções, que costumava ser ensinada por Severo Snape, um antigo desafeto do pai de Harry na época em que ambos estudaram em Hogwarts, e que tem perseguido o filho de seu rival de todas as maneiras possíveis, desde que este chegou à escola. E Snape, por sua vez, é quem passa a ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas.

Por acaso, Harry se vê de posse de um velho livro de Poções cheio de anotações manuscritas feitas por um antigo estudante de Hogwarts que se identificava apenas como o "Príncipe Mestiço" - e essas anotações acabam se mostrando mais úteis que o conteúdo do livro propriamente dito. Além de dicas que rapidamente fazem de Harry um prodígio no preparo de poções (atividade na qual nunca se havia mostrado particularmente talentoso), as anotações do Príncipe incluem feitiços aparentemente inventados por ele próprio e cuja utilidade não é conhecida - coisa que pode ser bem perigosa, na opinião de Hermione Granger, a outra melhor amiga de Harry e melhor aluna de sua série.

Paralelamente às aulas normais, Harry, periodicamente, é chamado ao escritório de Dumbledore, que, por meio de lembranças colhidas de diversas pessoas, vai revelando a ele (e ao leitor) uma série de informações até então ocultas sobre o passado de Voldemort. O modo como essas lembranças são partilhadas foi uma criação particularmente brilhante de Rowling: por meio de um artefato conhecido como "Penseira", Harry e Dumbledore mergulham nas lembranças de outras pessoas e as vivenciam como se estivessem na época e no local dos acontecimentos. O diretor é de opinião que Harry deve saber o máximo possível sobre o inimigo, a fim de preparar-se para o confronto inevitável: uma profecia feita logo após Harry nascer revelou que, no final, ele terá que matar Voldemort ou ser morto por ele.

Parte do encanto (ops!) da história está no fato de que, ao mesmo tempo em que se vê implicado em acontecimentos grandiosos e terríveis e convive com o fato de que o destino do mundo bruxo pode vir a estar em suas mãos a qualquer momento, Harry também precisa lidar com os mesmos desafios de um adolescente comum: trabalhos da escola, o time de quadribol (o esporte mais popular entre os bruxos) onde joga, e a paixão que descobre estar sentindo por Gina Weasley, a irmã mais nova de Rony. E, antes que seu sexto ano termine, ele terá mais uma vez que enfrentar provas muito mais penosas que as da escola, onde estará em jogo muito mais do que sua vida, e que exigirão toda a sua coragem, habilidade em magia, e a ajuda de seus fiéis amigos. Mais dramático que isso: sem ter ainda se recuperado totalmente da morte de seu padrinho, Sirius Black, que tombou no ano anterior combatendo as forças das Trevas, Harry perderá outra das pessoas mais importantes de sua vida.


Ler Harry Potter é uma daquelas experiências que me fazem sentir uma grande pena do fato de que tão poucas pessoas possuam cultura suficiente para perceber todas as alusões, alegorias e brincadeiras que vou encontrando. Muita gente aponta para a influência que J.K. Rowling recebeu de J.R.R. Tolkien, o imortal autor de O Senhor dos Anéis - mas, até aí, qual escritor moderno de fantasia não deve alguma coisa a Tolkien? É bastante óbvio, por exemplo, que Dumbledore nada mais é que a versão rowlinguiana de Gandalf - mas quantos leitores se deram conta de que este último, que no início do SdA é conhecido como Gandalf, o Cinzento, a certa altura passa a ser Gandalf, o Branco, e que o primeiro nome de Dumbledore é Alvo, ou seja, "branco"? Sem relação direta com Tolkien, também é muito divertido decifrar os nomes de muitos personagens: Sirius Black é um "animago", um bruxo com o poder de transformar-se em determinado animal - no caso dele, um enorme cão preto. Ora: Black, como todo mundo sabe, quer dizer preto; Sirius é uma estrela da constelação do Cão Maior. Portanto, "Sirius Black" é apenas uma maneira disfarçada de dizer "cachorro grande e preto". Remo J. Lupin é um bruxo que sofre a maldição da licantropia - e, enquanto "Lupin", 'lupino', quer dizer "próprio ou semelhante a lobo", Remo era o irmão gêmeo de Rômulo, o fundador de Roma, que, juntamente com ele, teria sido amamentado por uma... loba. O zelador de Hogwarts, que anda pela escola vigiando tudo o que os estudantes fazem, chama-se Argo Filch - Argo, como o gigante de cem olhos da mitologia grega. A professora de Adivinhação chama-se Sibila Trelawney e é descendente de uma famosa vidente chamada Cassandra Trelawney; Sibila era o nome dado às profetisas da Roma antiga, e Cassandra era a filha do rei de Troia, igualmente uma profetisa. O grupo musical mais popular entre os adolescentes bruxos é chamado na tradução de As Esquisitonas, mas no original o nome era The Weird Sisters - literalmente, 'as Irmãs Estranhas', uma referência ao trio de feiticeiras que aparecem na peça Macbeth, de Shakespeare... Esta lista poderia continuar por páginas e páginas.


Porém, o paralelo mais interessante que encontrei na série foi a aproximação - não tão evidente, mas inegável quando se analisa todas as pistas - entre Lorde Voldemort e Hitler. Vamos somar dois mais dois: Voldemort é idolatrado pelos bruxos que se orgulham de seu sangue puro e consideram mestiços e trouxas ralé - sendo que ele próprio é mestiço, filho de mãe bruxa e pai trouxa. Já Hitler arquitetou e liderou a maior e mais terrível campanha de extermínio já movida contra um grupo étnico na história da humanidade - e muito provavelmente era, ele próprio, neto de um judeu. Voldemort cerca-se de um grupo de seguidores terríveis, os Comensais da Morte, muitos dos quais também são mestiços que se declaram leais até a morte à causa da pureza do sangue bruxo; da mesma forma, seria preciso ser muito ingênuo para acreditar que todos os membros do Partido Nazista ou das SS fossem "arianos puros"... Trata-se, sem meias palavras, de uma alegoria extremamente inteligente para evidenciar a incoerência intrínseca de todas as ideologias baseadas em preconceitos; e ainda mais inteligente se torna por exigir uma certa dose de conhecimento e capacidade de raciocínio para ser detectada. Quem acha que Harry Potter é só literatura consumível ou coisa para criança deveria pensar de novo.

Quarta-feira, Setembro 28, 2011

Conan, o Bárbaro

E eis que a aventura A Hora do Dragão, único romance escrito por Robert E. Howard sobre seu mais famoso personagem, o bárbaro Conan, chega finalmente ao Brasil numa edição caprichada, embora intitulada simplesmente Conan, o Bárbaro e com a imagem do cartaz do filme servindo de capa... É incômodo dependermos das marés da indústria do cinema para ter acesso a obras que deveriam estar sempre em catálogo, mas vá lá: pior seria não termos acesso a essas obras de maneira nenhuma, como aconteceu durante muito tempo.

Howard (1906-1936) foi um jovem gênio de destino trágico. Filho do médico da pequena cidade texana de Cross Plains, cresceu num "mundo real" bastante limitado, típico de cidades interioranas em quase qualquer lugar, mas compensou esses limites com uma poderosa imaginação, exercitada desde a primeira infância, e com uma insaciável curiosidade sobre o mundo. O Dr. Isaac Howard depressa perdeu as esperanças de que seu único filho seguisse seus passos na medicina, mas também via com grande desconfiança as ambições do rapaz de ser escritor - o que era naquela época, como ainda hoje, um ganha-pão muito incerto, mesmo para os dotados de talento. O jovem Bob passou por diversos empregos, desde balconista até carteiro, mas não criou raízes em nenhum. Seu primeiro passo positivo para a profissionalização como escritor aconteceu quando sua história Spear and Fang ('Lança e Presa', um conto de homens das cavernas, escrito quando tinha 15 anos) foi publicada, na edição de julho de 1925 da revista Weird Tales. Durante os anos seguintes, escreveu e vendeu literalmente dezenas de histórias, em vários gêneros: esporte, faroeste, ficção histórica, terror e fantasia. Dentro desta última, foi notável sua contribuição para o subgênero hoje conhecido como sword and sorcery ('espada e feitiçaria'), ao ponto de muitas pessoas acreditarem, equivocadamente, que tenha sido o seu criador - na realidade, o britânico Lord Dunsany publicou histórias nesse estilo ainda durante a primeira década do século XX. O primeiro expoente howardiano de sword and sorcery foi uma história escrita em 1929 e ambientada numa era perdida da pré-história da Terra, cerca de 20 mil anos atrás, um mundo dominado por impérios poderosos e onde a magia era real. Para compor a geografia e as características humanas dessa era fictícia, o escritor costurou uma verdadeira colcha de retalhos, usando referências históricas e míticas oriundas das fontes mais diversas - e sem a menor cerimônia para misturar elementos que, na origem, não tinham qualquer ligação de contemporaneidade entre si. Nesse mundo próprio repleto de esplendores e perigos desenrolou-se a saga de um personagem que, embora subestimado até mesmo por muitos fãs de Howard, em minha opinião possui potencial heroico próximo ao de Conan, e um potencial dramático bem superior: Kull da Atlântida, que vai me render outro post.

Por ora, digamos apenas que a primeira aventura de Kull foi rejeitada pela Weird Tales e ficou na gaveta da escrivaninha de Howard durante os três anos seguintes, enquanto o autor dedicava-se a outros projetos. Em 1932, ele a retomou e reescreveu, mantendo a linha geral do roteiro, mas mudando o nome do herói e ambientando-a numa outra era fantástica, que teria existido oito mil anos depois dos tempos de Kull e 12 mil anos antes dos dias atuais. Desta vez aceito pela WT e publicado na edição de dezembro daquele ano, esse conto, The Phoenix on the Sword ('A Fênix Sobre a Espada'), marcou a primeira aparição de Conan, já como rei da Aquilônia - o reino mais poderoso da época -, enfrentando uma conspiração para destroná-lo e matá-lo, envolvendo inimigos tanto naturais quanto sobrenaturais.

Se a Era Pré-cataclísmica de Kull era uma fabulosa miscelânea de elementos tirados de todos os lugares possíveis e imagináveis, a Era Hiboriana de Conan é tudo isso elevado ao quadrado. "Hiborianos", por falar nisso, é uma designação genérica usada para se referir aos reinos correspondentes à atual Europa, que teriam sido os mais influentes e poderosos de tal época. Examinando o mapa do mundo onde viveu Conan, a impressão que se tem é a de que Howard quis certificar-se de que nele estivessem presentes os ambientes e ingredientes necessários para praticamente qualquer tipo de aventura que se pudesse imaginar: existem bárbaros orgulhosos e violentos em reinos gelados no norte, existem mares infestados de piratas, existem desertos povoados de belicosos beduínos e de mistérios ao estilo de As 1001 Noites, existem savanas e selvas tropicais com suas tribos selvagens e feras exóticas (os reinos negros ao sul da Stygia), existem reinos regidos por estruturas feudais de poder, como a própria Aquilônia, nitidamente inspirada na França medieval, existem países orientais esplendorosos e quase desconhecidos pelos hiborianos - e, claro, há vastas extensões ainda inexploradas, onde aventureiros audazes podem encontrar todo tipo de maravilhas e horrores.

O próprio Howard apenas começou a narrar as aventuras de seu herói nesse mundo extraordinário: não viveu o suficiente para levar as histórias muito adiante. Nele conviviam uma imensa criatividade e uma carga nada desprezível de conhecimentos gerais, particularmente sobre História (adquirida de maneira autodidata, pois ele nunca concluiu uma faculdade), mas também uma personalidade atormentada e emocionalmente imatura - basta dizer que se suicidou quando ficou sabendo que não havia chance de sua mãe se recuperar de um coma: não era capaz de se imaginar vivendo sem ela. Tinha pouco mais de 30 anos. Imaginem o que foi isso para o pobre Dr. Howard: enterrar esposa e filho num espaço de poucos dias...

Como uma última informação importante sobre o autor, deve-se lembrar que Robert E. Howard manteve durante vários anos uma extensa correspondência com vários outros escritores notáveis do gênero de fantasia, como H.P. Lovecraft, Clark Ashton Smith, August Derleth e outros, e que a leitura atenta das obras de todos esses autores mostrará a influência exercida reciprocamente entre eles.

A obra de Howard sofreu um período de ostracismo após a morte do autor. Nos anos 50 apareceu nos Estados Unidos um livro reunindo alguns contos sobre Conan; na década seguinte, os escritores L. Sprague de Camp e Lin Carter conseguiram ter acesso aos papéis pessoais deixados por Howard, entre os quais encontraram desde esboços rudimentares de enredo para contos que não chegaram a ser escritos até histórias inacabadas em variados estágios de progresso. Assumindo o encargo de novos cronistas da Era Hiboriana, De Camp e Carter completaram muitas dessas histórias, que vieram a ser publicadas. Também criaram histórias novas baseadas em simples anotações feitas por Howard, como a saga Conan, o Libertador, que contava sobre a revolução que o cimério teria liderado para derrubar o tirânico rei Numedides, vindo então a ocupar o trono da Aquilônia.

Em 1970, a Marvel adquiriu os direitos de adaptação para os quadrinhos de Conan e outros personagens de Howard, dando início àquela que seria a fase mais produtiva (em número de publicações) do bárbaro. Roy Thomas, já então um renomado argumentista de quadrinhos do selo, tornar-se-ia célebre pelo trabalho realizado com Conan. Não tenho certeza se as primeiras histórias em quadrinhos de Conan a aparecerem no Brasil chegaram antes ou depois da estréia do primeiro filme do personagem, mas a editora Bloch lançou algumas publicações antes de a Abril, então parceira da Marvel no país, começar a publicar A Espada Selvagem de Conan, versão nacional de The Savage Sword of Conan, revista em formato grande, preto e branco, que no Brasil durou de 1984 a 2001. Também saíram algumas aventuras de Conan nas revistas Heróis da TV e Superaventuras Marvel, que eram coloridas e em formato pequeno. Mais recentemente, a Dark Horse Comics publicou uma revista intitulada simplesmente Conan, também em quadrinhos. No tocante à publicação de contos em sua forma original, um único conto de Conan aparece no livro Magos, segundo volume da série de coletâneas Os Mundos Mágicos da Fantasia, coordenada por Isaac Asimov, Martin H. Greenberg e Charles G. Waugh e publicada no Brasil pela Melhoramentos no início da década de 90. Em 1995, a editora Unicórnio Azul lançou cinco edições de Conan - Espada & Magia, contendo contos originais de Howard e também trabalhos de De Camp & Carter. A editora Conrad publicou dois volumes, atualmente fora de catálogo, com contos do bárbaro. Por fim, agora, aproveitando o embalo do novo filme, a Generale nos traz esta edição que inclui o romance A Hora do Dragão e mais três contos. Edição essa da qual vejo que terei que falar em outra oportunidade, pois já escrevi muito e não posso concluir sem dizer uma palavra sobre os filmes. Vamos a isso...

Conan nas telas – then & now...

Sempre intrigou os fãs de Robert E. Howard e de filmes de aventuras em geral o porquê de Conan e seu universo terem sido tão pouco explorados pelo cinema, fato esse que se torna ainda mais inexplicável se pensarmos no Tarzan de Edgar Rice Burroughs e nas dezenas de filmes já rodados sobre ele, com vários atores diferentes. Ora, o bárbaro de Howard teve a mesma origem do homem-macaco de Burroughs - as pulp magazines das décadas de 20 e 30 -, é um herói de nível, no mínimo, comparável, e com possibilidades infinitamente maiores, considerando o mundo onde viveu e a longa e variada carreira que teve. Apesar disso, e por alguma razão, até este ano só existiam dois filmes sobre as aventuras do cimério: Conan, o Bárbaro (1982) e Conan, o Destruidor (1984), ambos estrelados por Sua Excelência (respeito, afinal o homem já foi governador), o austríaco naturalizado ianque Arnold Schwarzenegger. E, verdade seja dita, se Schwarzenegger jamais chegou a ser um ator digno desse nome, nesses filmes, ainda em início de carreira, praticamente deu um novo sentido à palavra "canastrão". O máximo que se pode dizer a seu favor é que sempre esteve perfeitamente consciente de suas limitações e nunca tentou posar de prodígio dramático: alguns anos depois, comentou, bem-humorado, que até o cavalo que montara em Conan, o Bárbaro era mais expressivo que ele. Apesar disso, esse filme, dirigido por John Milius, marcou época, e há excelentes razões para que seja visto... Só que, por ser uma adaptação extremamente livre, não é aconselhável como primeiro contato com o personagem, embora um enorme número de pessoas (incluo-me) tenha conhecido Conan justamente por meio dele.

O roteiro foi criado independentemente por seus argumentistas (o próprio John Milius e Oliver Stone), tendo os escritos de Howard apenas como fonte de inspiração. Por exemplo, a infância e adolescência atribuídas a Conan no filme não têm qualquer compromisso com a (incompleta e fragmentada) biografia do personagem deixada por Howard: embora o escritor tenha registrado, em cartas e anotações, que a tribo de Conan vivia perpetuamente envolvida em conflitos - fosse com aesires, vanires, hiperbóreos, ou com outros clãs cimérios -, não escreveu em parte alguma que ela teria sido massacrada, ou que o próprio Conan tivesse crescido como escravo. Na verdade, Howard chegou a mencionar que a primeira batalha para valer de que Conan participou foi numa ocasião em que vários clãs da Ciméria uniram forças, pondo temporariamente de lado suas rixas, para atacar e arrasar a fortaleza de Venarium, construída pelos aquilonianos em solo cimério como primeiro passo de uma tentativa de conquista - e o escritor diz explicitamente que Conan teria então uns 15 anos, idade na qual, a dar-se crédito ao filme, ainda deveria estar movimentando uma pedra de moinho. Portanto, vejam o filme, mas não acreditem cegamente nele.

O vilão principal, o feiticeiro Thulsa Doom (interpretado por James Earl Jones, de longe a melhor atuação do filme), nunca enfrentou Conan nos livros ou nos quadrinhos: em vez disso, era o arquiinimigo do rei Kull, que teria vivido oito mil anos antes. O arqueiro e ladrão Subotai (Gerry Lopez), até onde sei, foi criado para o filme, enquanto Valéria (Sandahl Bergman), mostrada como sendo uma ladra e o amor da vida de Conan, na verdade era uma pirata, e apenas uma entre as muitas mulheres de sua carreira. É verdade que há citações a várias histórias de Howard: a sequência em que Conan encontra uma espada num velho túmulo foi tirada do conto A Coisa na Cripta, enquanto a invasão da fortaleza de Thulsa Doom tem vários detalhes que lembram A Torre do Elefante, sem mencionar que a promessa de Valéria a Conan ("Se eu estivesse morta e você lutasse por sua vida, eu voltaria do inferno para ajudá-lo!") é feita, na verdade, pela rainha pirata Bêlit - ela, sim, o grande amor do cimério, ou ao menos de sua juventude -, no conto A Rainha da Costa Negra (1934). E há mais detalhes assim. Ao mesmo tempo, o filme tenta ter o seu quantum satis de atualidade ao mexer com o tema da sedução de jovens por seitas estranhas, problema que havia alcançado dimensões preocupantes em diversos países na época. Por fim, é impossível negar que o clima épico e grandioso está lá, que há inúmeras cenas visualmente soberbas, que o ritmo e a narrativa prendem, que a magnífica trilha sonora de Basil Poledouris faz a sua parte (Anvil of Crom está entre as músicas com maior poder de causar arrepios de empolgação que já ouvi) e que o final é bem sacado por abrir possibilidades ilimitadas para os próximos filmes que viessem a ser rodados, ainda que isso tenha sido muito pouco explorado mais tarde. Resumindo tudo, Conan, o Bárbaro atualmente figura na minha coleção de DVDs, como acredito que deva figurar na de todo apreciador de fantasia e de aventuras épicas.

Pena que seja, até o momento, o único filme sobre Conan merecedor de tal distinção!...


Conan, o Destruidor, não chega a ser um desastre, mas decepcionou tremendamente quem esperava ver uma continuação digna do primeiro filme. É apenas uma aventura feijão-com-arroz, do tipo que esperaríamos encontrar em alguma edição meia-boca d'A Espada Selvagem de Conan lá por meados dos anos 90, quando tanto as histórias originais de Conan escritas por Howard quanto as melhores criações de Roy Thomas e da dupla L. Sprague de Camp & Lin Carter já haviam sido todas publicadas e a revista tentava sobreviver com o material (muitas vezes pífio) disponível. No roteiro, a rainha-bruxa Taramis (nome emprestado de uma personagem de uma história de Howard, embora a personagem em si não seja a mesma) contrata Conan para escoltar sua sobrinha Jenna (idem) na busca do Chifre de Dagon, um artefato de magia divina extremamente poderoso e que somente Jenna, uma predestinada, pode tocar. O bárbaro é acompanhado por um amigo ladrão metido a engraçado (Tracey Walter) e pelo gigantesco guarda-costas de Jenna, Bombaata (Wilt Chamberlain); no caminho juntam-se ao grupo o mesmo mago do filme anterior (Mako) e uma guerreira negra, Zula (Grace Jones). O Chifre está guardado na fortaleza do mago Thoth Amon (Howard parece ter criado esse personagem meio às pressas, batizando-o com os nomes de dois deuses egípcios escolhidos ao acaso, apenas para que Conan tivesse um grande mago do mal como inimigo, assim como Kull tinha Thulsa Doom; de qualquer forma, embora nas histórias originais tenha dado muita dor de cabeça ao herói durante muito tempo, aqui ele aparece reduzido a um vilão de ocasião). Há lutas, monstros, armadilhas, muitas cabeças decepadas e sangue à vontade, mas falta um algo mais que pudesse ter feito o filme sobressair acima do comum. Conan, o Destruidor vale para um passatempo inconsequente, mas não ficará marcado na memória como seu antecessor.

E o que dizer do Conan versão 2011? Que é um festival de clichês? Bem, isso poderia ser dito dos dois filmes anteriores, e, vamos concordar, clichê não é sempre e necessariamente uma coisa ruim. Porém, dependendo de como são usados, os clichês podem dar forma a alguma coisa que empolgue - ou não.

O novo filme começa como nenhum filme de Conan pode deixar de começar: uma voz que poderia pertencer a algum velho erudito recitando "Entre os anos em que os oceanos tragaram a Atlântida e a ascenção dos filhos de Aryas..." Aqui, porém, essa introdução é emendada com uma história que repercutirá diretamente na aventura a ser narrada: no
antigo e sombrio reino de Acheron, que teria existido antes do mundo hiboriano tomar forma, foi fabricado um artefato maligno, uma máscara capaz de dar poderes inimagináveis àquele que a usar - só que, para isso, precisa ser "abastecida" com o sangue de moças virgens. Quando o reino de Acheron caiu, as tribos bárbaras vitoriosas dividiram a máscara em três partes, "para que ninguém mais viesse a usar seus poderes malignos" (dãã... Embora o filme nada diga a respeito, suponho que essa máscara tivesse algum tipo de magia que a tornava indestrutível, mais ou menos como o Um Anel de Sauron; é a única explicação para que os bárbaros não a tenham destruído de uma vez e encerrado o assunto. Aliás, por que será que de repente me lembrei de Hellboy II?). E, como seria inevitável que acontecesse, séculos depois surge um sinistro vilão disposto a tudo para encontrar as três partes e ganhar os poderes ilimitados que a máscara promete. Para falar a verdade, o vilão em questão poderia ser mais sinistro: Khalar Zym (Stephen Lang) lembra demais o zelador Argo Filch, dos filmes de Harry Potter, para ser capaz de meter medo em alguém.

Entrementes, o pequeno Conan nasce no seio da tribo ciméria que guarda um dos pedaços da máscara - e nasce, literalmente, num campo de batalha (Robert E. Howard escreveu de passagem algo a respeito). Em poucos anos mostra a que veio, vencendo rapazes bem mais velhos nas rudes competições atléticas que acontecem na tribo e, de quebra, matando alguns pictos, inimigos hereditários de seu povo, antes mesmo de ter idade para fazer a barba. Porém, antes que ele tenha tempo de se tornar um guerreiro de fato, Khalar Zym descobre o paradeiro do pedaço da máscara e vem buscá-lo, de modo que a tribo (de novo) é dizimada, com o acréscimo de um requinte de crueldade: Khalar obriga Conan a assistir à morte de seu pai e mestre, o ferreiro e guerreiro Corin (Ron Perlman - puxa, Hellboy está me perseguindo hoje), ironicamente vitimado pelo mesmo elemento com o qual ganhava a vida: ferro derretido.

Não é difícil imaginar a vida de privações e perigos que o jovem cimério enfrenta a partir daí, mas isso fica implícito: o ator adolescente sai de cena e é substituído por Jason Momoa, o Conan "definitivo" - e preciso dizer: Momoa visivelmente se esforça, mas, embora eu bem que tenha tentado, não consigo achar que ele tenha a cara do personagem: talvez seja por ser havaiano, mas sempre vai me lembrar mais um surfista bombado que um guerreiro bárbaro. Como seria mais do que previsível, o cimério vai atrás de Khalar Zym para vingar a morte do pai, só que, a essa altura, o vilão está muito próximo de conseguir o que quer: já juntou todos os pedaços da máscara e só precisa encontrar uma mulher de "sangue puro" (seja lá o que isso queira dizer) para sacrificar a fim de ativar o poder da coisa. Essa é Tamara (Rachel Nichols), que está sendo educada para sacerdotisa até o templo onde vive ser atacado pela horda de Khalar Zym e todas as suas colegas e mestres serem chacinados. Ela própria escapa graças a Conan, e, se até aí não tinha havido surpresas, daí em diante muito menos: a bela mocinha passa quase todo o resto do filme a tiracolo do herói musculoso enquanto ele despacha filas e filas de vilões e monstros, e, a certa altura, é salva por ele de um destino trágico, por um triz, é claro. Gritando muito o tempo todo.

Visualmente, o novo Conan é cansativo em várias partes: a tentativa de evocar um clima "sombrio" faz com que haja muitas cenas escuras, onde os olhos do espectador se fatigam tentando acompanhar a ação no que parece ser apenas uma confusão de formas indistintas em movimento - em 3D fica ainda pior -, e, quando essas cenas terminam, tem-se sempre a sensação de haver perdido alguma coisa. O diretor alemão Marcus Nispel poderia ter aprendido com 300, onde o uso inteligente da fotografia em sépia dá o tom soturno sem prejudicar a visibilidade.

Muito do que eu disse sobre Conan, o Destruidor também se aplica a Conan, o Bárbaro 2011: não é propriamente uma catástrofe, e não se pode negar que tem tudo o que uma aventura do gênero sword and sorcery que se preza (e até as que não se prezam) precisa ter: sequências vertiginosas de ação, lutas bem coreografadas, intervenções sobrenaturais, monstros, cenários exóticos... O problema é que, depois de assisti-lo, fica-se com a sensação de que, com tudo isso, teria sido possível fazer um filme muito melhor. Sabe como é quando você prova um prato que, embora tenha levado todos os ingredientes que devia, mesmo assim ficou insosso, porque faltou ao cozinheiro aquele "pulo do gato"? Resumindo: o filme até consegue seu objetivo de divertir - mas está muito, muito longe de fazer com que tenham valido a pena os 27 anos de espera para ver Conan nas telas novamente. Um filme sword and sorcery pode, sim, ir além de ser uma aventurazinha vulgar: pode empolgar, encher os olhos e a imaginação, inspirar e emocionar. Só que ainda continuamos esperando por uma produção que se mostre capaz de provar tudo isso: o filme de Nispel, definitivamente, não prova.